Mais de 30 milhões de crianças no Brasil estão sujeitas a dois ou mais riscos climáticos, conforme levantamento inédito do Unicef divulgado. O quadro tende a se deteriorar com o avanço do El Niño, considerado um dos mais intensos desde 1950. O estudo, conduzido pelo centro do Unicef especializado em infância e resiliência climática, sediado em Bangcoc, na Tailândia, evidencia de que maneira a estiagem, o calor excessivo, os incêndios florestais, as tempestades e as inundações afetam a vida dos menores, alcançando desde a saúde e a alimentação até o acesso à água, à escola e à proteção.
O planeta atravessa um El Niño com possibilidade de atingir grande magnitude, podendo registrar intensidade histórica. Esse fenômeno, que eleva a temperatura das águas do Pacífico e interfere no clima nacional, provoca estiagem na região Norte e chuvas mais volumosas no Sul. Em 2024, o Brasil enfrentou um El Niño severo, com efeitos de norte a sul. A pesquisa do Unicef detalha os impactos registrados naquele período sobre as crianças: as inundações no Rio Grande do Sul prejudicaram a educação de 741 mil estudantes, enquanto, no extremo oposto do mapa, a seca na Amazônia afetou outros 436 mil, deixando comunidades sem acesso à água ou a alimentos. No total, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram as aulas suspensas.
A situação brasileira integra um padrão mundial. Conforme o relatório de riscos climáticos para crianças do Unicef, 1,1 bilhão de menores, quase metade da população infantil do globo, estão expostos a três ou mais riscos climáticos simultâneos. Ainda não é possível determinar se o evento deste ano será tão devastador quanto o de 2024. Segundo meteorologistas, mesmo que o fenômeno seja bastante intenso, tudo dependerá do comportamento da atmosfera. Entretanto, os dados de 2024 demonstram, de acordo com o Unicef, como os serviços dos quais as crianças dependem se tornam frágeis quando seca, calor, fumaça ou chuva extrema se manifestam.
"Uma seca pode significar falta de água segura, fumaça, dificuldade para chegar à escola ou ao posto de saúde. Uma enchente pode significar escola fechada, vacinação interrompida ou perda da renda da família", afirma Danilo Moura, especialista em clima e meio ambiente do Unicef no Brasil. Por estarem em fase de desenvolvimento, as crianças são mais vulneráveis ao calor extremo, à desidratação, à fumaça, à desnutrição e a doenças que se proliferam com as variações de temperatura e de chuva, indica a análise. "Nós já sabemos que há um El Niño forte em curso e conhecemos os tipos de impacto que podem atingir diferentes regiões. Preparar os serviços agora custa menos, permite responder mais rápido e, principalmente, evita que a emergência climática se transforme em uma emergência para as crianças", declara Danilo.
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