Com mais de 20 anos de experiência em tecnologia e desenvolvimento econômico na região amazônica, o empreendedor Tulio Condé Duarte Silva, está à frente da empresa AeroRiver, que já obteve o título de Startup do Ano pelo Jaraqui Graúdo e foi reconhecida entre as mais promissoras do Brasil, além de ter conquistado, recentemente, o Prêmio Finep de Inovação Nacional.
Cofundador e Diretor de Negócios da empresa, Tulio lidera o projeto que desenvolve veículos de efeito solo, conhecidos popularmente como "barcos voadores". Em entrevista exclusiva ao ON Jornal, Tulio Condé explica como esse projeto promete solucionar os "gargalos de distância" na Amazônia, além de detalhar os benefícios econômicos e sustentáveis para a região. Confira a entrevista.
ON Jornal: Como é que surgiu a empresa AeroRiver e quanto já está atuando na região amazônica?
Tulio Condé: AeroRiver surgiu olhando para um problema muito claro, que é a mobilidade na Amazônia. Estamos falando de uma região de dimensões continentais, onde o transporte ainda é muito lento, principalmente quando dependemos de barcos e lanchas. A partir disso, começamos a desenvolver uma solução que pudesse combinar baixo custo com alta velocidade, para viabilizar o deslocamento de pessoas, cargas e serviços de forma mais eficiente.
Essa solução também tem um papel importante no desenvolvimento econômico da região, permitindo que o governo, empresas e serviços cheguem com mais presença a locais remotos, fortalecendo a soberania e criando melhores condições para que as populações que vivem e cuidam da floresta possam prosperar com mais dignidade.
ON Jornal: A empresa AeroRiver quer implementar um projeto na região amazônica com uma tecnologia inovadora e inédita no Brasil, é um barco voador? Como é que vai funcionar e quais são as previsões de lançamento?
Tulio Condé: Sim, é o que a gente costuma chamar de “barco voador”, mas tecnicamente é um veículo de efeito solo. Ele funciona voando a poucos metros acima da água, utilizando um fenômeno aerodinâmico que aumenta a eficiência e reduz o consumo de energia. Na prática, ele combina a facilidade operacional de um barco com a velocidade de uma aeronave. Isso permite operar diretamente nos rios da Amazônia, sem necessidade de infraestrutura complexa como aeroportos.
Hoje, nós já estamos em fase avançada de desenvolvimento do nosso primeiro veículo tripulado, que está em fabricação. A previsão é iniciar os primeiros testes ainda este ano, com operação na Amazônia a partir do segundo semestre.
ON Jornal: Aqui em nossa região enfrentamos o que podemos chamar de “gargalo das distâncias”. Em termos de eficiência operacional e tempo, qual é a diferença real que o veículo da AeroRiver vai entregar em comparação a uma lancha rápida ou a um hidroavião convencional?
Tulio Condé: A diferença é bastante significativa. Hoje, uma lancha rápida na Amazônia normalmente opera entre 40 a 60 km/h. O nosso veículo tem uma velocidade de operação de 150 km/h, ou seja, pode reduzir o tempo de deslocamento em até três vezes.
Quando comparamos com o hidroavião, ele tem velocidade semelhante ou até maior em alguns casos, mas depende de infraestrutura mais complexa, tem custo operacional muito mais alto e menor flexibilidade de operação em diferentes pontos dos rios. O que a AeroRiver entrega é um equilíbrio: alta velocidade, custo mais baixo e operação direta na água, sem necessidade de aeroportos. Isso permite aumentar a frequência de viagens e melhorar muito a logística na região.
ON Jornal: Quais são os maiores desafios de engenharia e regulação para operar um veículo tão inovador em um ambiente tão complexo quanto os rios da região Norte?
Tulio Condé: Do ponto de vista de engenharia, o principal desafio está no fato de que, embora seja um veículo enquadrado como embarcação e regulamentado pela Marinha, ele reúne características tanto de barcos quanto de aeronaves. A diferença é que uma aeronave tradicional opera em alta altitude e só utiliza o efeito solo durante o pouso e a decolagem. No nosso caso, o veículo opera o tempo todo nesse regime, voando próximo à superfície da água. Isso exigiu, ao longo dos últimos anos, um trabalho intenso de pesquisa e desenvolvimento, que hoje já nos permitiu dominar os modelos matemáticos e o comportamento do veículo nesse tipo de operação.
Outro ponto importante é o controle do veículo. Voar próximo à lâmina d’água exige precisão, principalmente em curvas e variações de altura. Esse era um desafio relevante no início do desenvolvimento, mas hoje já foi superado com a implementação de sistemas automatizados que controlam a altitude e garantem que o veículo opere sempre dentro de uma faixa segura, sem risco de contato com a água.
Além disso, o projeto evoluiu para incorporar soluções robustas de estabilidade aerodinâmica e hidrodinâmica, integrando componentes aeronáuticos, navais e sistemas de software, o que traz maior previsibilidade e segurança para a operação. Do ponto de vista regulatório, apesar das características aeronáuticas, o veículo é classificado como embarcação. Já temos um entendimento formal de que ele não se enquadra na certificação aeronáutica, e o processo regulatório está sendo conduzido no âmbito marítimo. A nossa abordagem é desenvolver a tecnologia sempre alinhada aos requisitos de segurança e em diálogo contínuo com as autoridades, garantindo uma operação segura, confiável e viável na Amazônia.
ON Jornal: Falando em desenvolvimento econômico na região, quais seriam os benefícios para as empresas adotarem essa tecnologia? Você tem parceiros que apoiam o projeto?
Tulio Condé: Para as empresas, o principal benefício é ganho de eficiência logística. Hoje, operar na Amazônia significa lidar com prazos longos, alto custo e baixa previsibilidade. Com o nosso veículo, é possível reduzir significativamente o tempo de transporte, aumentar a frequência de operações e melhorar a confiabilidade das entregas. Isso impacta diretamente setores como logística, indústria, energia, saúde e segurança, permitindo acesso mais rápido a regiões remotas e maior eficiência operacional.
Em relação a parcerias, já contamos com o interesse de diferentes empresas e instituições, tanto no desenvolvimento da tecnologia quanto na construção de modelos de operação. Também temos parceiros envolvidos em projetos de pesquisa, testes e estruturação da operação. Existe um movimento consistente de aproximação do mercado, e seguimos abertos a novas parcerias, considerando o potencial de escala dessa solução para a Amazônia.
ON Jornal: No que diz respeito à sustentabilidade, sabemos que cada vez mais há uma cobrança de soluções verdes para a Amazônia. Como a AeroRiver se posiciona nesse quesito?
Tulio Condé: A sustentabilidade está no centro do nosso desenvolvimento. O nosso veículo é mais eficiente energeticamente do que os modais tradicionais, porque opera em efeito solo, reduzindo o arrasto e o consumo de combustível por quilômetro transportado. Além disso, ao reduzir o tempo de deslocamento e otimizar rotas, conseguimos diminuir emissões e aumentar a eficiência logística como um todo. Também já estamos avançando na evolução tecnológica. O nosso primeiro modelo, o Voadeiro, foi concebido com arquitetura híbrida, com motores auxiliares elétricos, e motorização flex, podendo operar com etanol, que é um combustível renovável.
Outro ponto importante é que a tecnologia permite levar acesso e desenvolvimento para regiões remotas sem necessidade de grandes obras de infraestrutura, reduzindo impacto ambiental direto. A nossa visão é desenvolver uma solução que aumente a conectividade logística da Amazônia com eficiência e menor impacto ambiental, contribuindo para um modelo de desenvolvimento mais sustentável na região.
ON Jornal: Há questões burocráticas para implementar esse projeto aqui na região ou mesmo no interior, em áreas de difícil acesso? Quais seriam?
Tulio Condé: Sim, existem desafios, principalmente por se tratar de uma tecnologia nova. O principal ponto é o enquadramento regulatório, já que é um veículo que não se encaixa perfeitamente em categorias tradicionais. Isso exige um trabalho próximo com os órgãos reguladores para definir normas e processos adequados para a operação. Além disso, há questões relacionadas à operação em áreas remotas, como autorizações locais, logística de suporte e integração com estruturas já existentes.
Por outro lado, por ser uma solução que opera diretamente nos rios e não depende de grandes infraestruturas, conseguimos reduzir parte dessas barreiras, o que facilita a implementação em regiões de difícil acesso. A nossa abordagem tem sido trabalhar de forma coordenada com as autoridades e parceiros locais, estruturando o caminho regulatório e operacional para viabilizar a implantação de forma segura e eficiente.
ON Jornal: Na questão de segurança, já foram realizados testes? Quais são as normas que norteiam o projeto para que esse barco voador seja operado de forma segura para a tripulação?
Tulio Condé: Nós já realizamos testes em escala reduzida e validações dos principais subsistemas, o que permitiu evoluir o projeto com base em dados reais de operação. O veículo está sendo desenvolvido com padrões rigorosos de engenharia, com foco em redundância de sistemas, estabilidade e controle automatizado, especialmente por operar próximo à superfície da água.
O projeto já atingiu um nível de maturidade que nos permite garantir previsibilidade e controle da operação, com sistemas que auxiliam o piloto e reduzem riscos. A segurança é um dos nossos pilares, seguindo as diretrizes aplicáveis a embarcações e incorporando as melhores práticas da engenharia naval e aeronáutica. Nos próximos meses, avançaremos para a fase de testes com o veículo tripulado, que será um passo importante para a validação final em ambiente real.
ON Jornal: Com mais de duas décadas de experiência em inovação na região, como você avalia o atual momento do ecossistema de startups da Amazônia?
Tulio Condé: O ecossistema de startups da Amazônia evoluiu bastante nos últimos anos. Hoje já vemos mais iniciativas estruturadas, maior conexão entre empreendedores, universidades, empresas e instituições públicas, além de soluções cada vez mais aderentes aos desafios da região. Instituições como a SUFRAMA têm um papel importante no desenvolvimento regional, especialmente por meio dos programas prioritários, que apoiam projetos de inovação e fazem diferença na estruturação de iniciativas locais.
O Sebrae também tem contribuído de forma consistente no fortalecimento do ecossistema, apoiando a formação de empreendedores e a consolidação dos negócios. Além disso, a Finep vem ampliando as oportunidades com editais voltados para inovação, incluindo chamadas específicas para a região Norte e Amazônica, o que ajuda a viabilizar projetos mais complexos. Ainda temos desafios, principalmente em acesso a capital e escala, mas o momento é de crescimento e consolidação do ecossistema.
ON Jornal: Na sua visão, o que falta para que grandes investidores olhem para soluções “made in Amazonas” não como projetos exóticos, mas como negócios de escala global e alta rentabilidade?
Tulio Condé: O principal ponto é mostrar consistência de execução e escala. Muitos investidores, principalmente internacionais, ainda têm dificuldade de compreender o real potencial da Amazônia. Em muitos casos, a região é vista apenas como floresta a ser preservada, e não como um ambiente de desenvolvimento tecnológico e geração de negócios. Isso faz com que, muitas vezes, as startups locais não sejam percebidas como oportunidades de escala global. Por outro lado, esse cenário está começando a mudar.
Temos visto uma aproximação maior de outros ecossistemas, com a vinda de empreendedores e iniciativas que promovem essa conexão, ampliando a troca de conhecimento e fortalecendo a percepção sobre o potencial da região. À medida que conseguimos mostrar resultados concretos, capacidade de execução e crescimento das startups locais, essa visão tende a evoluir, abrindo mais oportunidades com investidores em nível global.
ON Jornal: Se você pudesse definir a “Amazônia do Futuro” considerando a tecnologia da AeroRiver, qual seria a definição?
Tulio Condé: Uma Amazônia conectada, onde a tecnologia reduz distâncias nessa região de dimensões continentais, de enorme riqueza de biodiversidade e de pessoas talentosas e resilientes, permitindo que essas pessoas se desenvolvam e tenham capacidade de prosperar economicamente.
Um futuro em que as diferentes regiões, das grandes cidades até as calhas dos rios e os locais mais remotos, estejam integradas, com acesso e oportunidades reais. E onde o desenvolvimento econômico caminhe junto com a preservação da floresta, gerando qualidade de vida, presença nos territórios e prosperidade de forma sustentável.
Copyright © 2021-2026. Onjornal - Todos os direitos reservados.