Completando 281 anos, a Procissão do Fogaréu mais uma vez emocionou turistas e moradores na Cidade de Goiás, no noroeste do estado, na madrugada desta quinta-feira (2). O evento, um dos espetáculos mais viscerais da fé católica no Brasil, transforma anualmente as ruas de pedra da Cidade de Goiás em um cenário de época que remonta à Idade Média. Realizado tradicionalmente à meia-noite da Quarta para quinta, o cortejo atrai milhares de fiéis e turistas para testemunhar a encenação da busca e prisão de Jesus Cristo. Sob o som de tambores e o brilho de tochas, o evento é o ponto alto das celebrações da Semana Santa no estado, unindo devoção religiosa e um rigoroso apuro estético-histórico.
A tradição foi introduzida em solo goiano em 1745 pelo padre espanhol João Perestelo de Vasconcelos Espíndola. Inspirada em rituais de penitência da Península Ibérica, a cerimônia sobreviveu aos séculos, consolidando-se como um pilar da identidade cultural local. Embora tenha sofrido interrupções ao longo do tempo, foi revitalizada na década de 1960 pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT), que padronizou a estética e o roteiro que conhecemos hoje, elevando a procissão ao status de patrimônio imaterial.
O elemento visual mais marcante são os Farricocos, personagens que representam os soldados romanos. Vestindo túnicas coloridas e chapéus cônicos pontiagudos — indumentária medieval que simboliza o anonimato e a penitência —, cerca de 40 homens caminham descalços carregando tochas acesas. O ápice da jornada ocorre diante da Igreja de São Francisco de Paula, que simboliza o Monte das Oliveiras. Ali, em meio ao silêncio da multidão e ao estalar das chamas, o som lúgubre de um clarim anuncia a captura de Cristo. A procissão não é apenas um ato religioso, mas um fenômeno de resistência cultural que mantém viva a memória colonial do Brasil Central, reafirmando a cada ano a força das tradições que moldaram a antiga capital de Goiás.
Copyright © 2021-2026. Onjornal - Todos os direitos reservados.