quinta, 23 de abril de 2026
21/02/2026   08:00h - Entrevistas

Saberes Ancestrais: Prof. Dr. Adneryson Moreira fala ao ON Jornal sobre a conquista do título de PhD no exterior com tese sobre Mitologia Indígena

O professor da rede estadual Adneryson Moreira do Nascimento alcançou o título de PhD em Ciências da Educação com uma tese que mergulha nas profundezas da mitologia indígena. Defendido perante uma banca internacional (UnInter), o trabalho recebeu nota máxima e elogios pela sua “relevância social”.  Além de professor, ele é pesquisador, escritor e PhD na área de Ciências da Educação, com foco em interculturalidade, saberes ancestrais e práticas pedagógicas contextualizadas à realidade amazônica.

Sua trajetória acadêmica e profissional está voltada à valorização da identidade cultural da Amazônia, à educação humanista e à integração entre conhecimento científico e saberes tradicionais, especialmente no âmbito da escola pública. Em entrevista exclusiva ao On Jornal, o Prof. Dr. Adneryson explica como a cosmologia dos povos originários pode transformar a educação pública e fortalecer a identidade regional.



Confira.

ON Jornal: O que o motivou a escolher a mitologia indígena como núcleo de uma tese de doutorado internacional?

Prof. Dr. Adneryson: Como professor da rede pública no Amazonas, sempre observei um distanciamento entre o currículo escolar formal e a realidade sociocultural dos estudantes. Em sala de aula, percebi que muitos alunos amazônidas conheciam mais mitologias estrangeiras do que as narrativas indígenas de seu próprio território. Esse contraste despertou em mim uma inquietação pedagógica e científica: por que os saberes ancestrais da Amazônia, que possuem profundidade filosófica, simbólica e epistemológica, ainda são tratados apenas como folclore ou “lendas”?

Um episódio marcante foi perceber que alunos de origem urbana demonstravam curiosidade genuína quando conteúdos culturais locais eram inseridos nas aulas, aumentando significativamente o engajamento e o senso de pertencimento. Assim, a escolha do tema nasceu da prática docente, da realidade amazônica e da necessidade acadêmica de legitimar os saberes tradicionais no campo científico e educacional.

ON Jornal: Como foi o desafio de apresentar os saberes ancestrais da Amazônia a uma banca internacional (UnInter) e qual foi a percepção deles?

Prof. Dr. Adneryson: Apresentar os saberes ancestrais amazônicos em um contexto acadêmico internacional foi, ao mesmo tempo, um desafio epistemológico e uma responsabilidade cultural. O principal desafio foi traduzir a complexidade simbólica, histórica e pedagógica da mitologia indígena para uma linguagem científica sem descaracterizar sua essência.

A banca demonstrou grande interesse pela originalidade da pesquisa, sobretudo pela proposta de reconhecer os saberes ancestrais como fontes legítimas de conhecimento educacional e intercultural.


ON Jornal:  Como transpor a mitologia indígena para o plano de aula sem que seja vista apenas como “lenda”?

Prof. Dr. Adneryson: A transposição pedagógica da mitologia indígena exige uma abordagem interdisciplinar, crítica e contextualizada. Não se trata de substituir conteúdos científicos, mas de ampliar a compreensão do conhecimento, integrando diferentes epistemologias.

Na prática, o professor pode trabalhar os mitos indígenas como: Filosofia ancestral (valores, ética e cosmovisão); Fonte histórica e cultural; Instrumento de reflexão ambiental e social; Recurso literário e simbólico na construção do pensamento crítico. Quando apresentados com fundamentação pedagógica, os mitos deixam de ser vistos como meras narrativas folclóricas e passam a ser compreendidos como sistemas de pensamento, carregados de lógica, ética, cosmologia e saber ecológico.

ON Jornal: Como a mitologia indígena contribui para o sentimento de pertencimento do aluno urbano à identidade amazônica?

Prof. Dr. Adneryson: A escola pública do Amazonas recebe majoritariamente estudantes urbanos que, muitas vezes, vivem um distanciamento simbólico da floresta e das culturas originárias. A inserção da mitologia indígena no processo educativo contribui diretamente para a reconstrução da identidade cultural e do sentimento de pertencimento.

Quando o aluno passa a compreender que os mitos indígenas expressam visões profundas sobre natureza, espiritualidade, ética e coletividade, ele deixa de enxergar a cultura amazônica como algo distante ou exótico. Pelo contrário, passa a reconhecê-la como parte de sua própria formação histórica e social. Esse processo fortalece a autoestima cultural, valoriza as raízes regionais e promove uma educação mais inclusiva e representativa.



ON Jornal: A tese foca na “Prática Docente”. Quais foram as principais barreiras ou resistências que o senhor identificou entre os educadores ao tentar implementar saberes ancestrais no currículo formal?

Prof. Dr. Adneryson: As principais barreiras que identifiquei foram, sobretudo, de natureza formativa e cultural. Muitos educadores ainda foram formados em uma perspectiva eurocêntrica do conhecimento, na qual os saberes ancestrais são vistos como folclore ou tradição oral sem valor científico.

Além disso, existe a pressão do currículo formal e das avaliações padronizadas, que acabam limitando a autonomia pedagógica do professor. Contudo, quando os docentes compreendem que esses saberes dialogam com filosofia, ética, meio ambiente e identidade cultural, há uma mudança significativa de percepção e aceitação dentro da prática pedagógica.

ON Jornal: O senhor menciona que sua tese é um instrumento de “interculturalidade”. Como essa abordagem pode ajudar a combater o preconceito e o etnocentrismo dentro das escolas públicas do Amazonas?

Prof. Dr. Adneryson: A interculturalidade é essencial para a realidade amazônica, pois vivemos em um território marcado pela diversidade étnica e cultural. Ao inserir a mitologia indígena como recurso pedagógico, o aluno passa a reconhecer os povos originários não apenas como parte do passado, mas como produtores de conhecimento, filosofia e visão de mundo.

Isso contribui diretamente para reduzir o preconceito, o etnocentrismo e a invisibilização cultural. A escola, nesse sentido, torna-se um espaço de valorização da identidade amazônica, promovendo respeito, empatia e consciência histórica. Trata-se de uma educação que forma cidadãos mais críticos, sensíveis à diversidade e comprometidos com a justiça social e cultural.




ON Jornal: A nota máxima e o elogio da banca pela “relevância social” indicam que o trabalho vai além da academia. Como o senhor planeja devolver esse conhecimento para a comunidade do Estado?

Prof. Dr. Adneryson: Meu compromisso sempre foi que a pesquisa não ficasse restrita ao meio acadêmico. Pretendo devolver esse conhecimento por meio de formação continuada para professores da rede pública, palestras educacionais, produção de livros didáticos e artigos científicos acessíveis, além de projetos pedagógicos voltados à valorização da cultura amazônica nas escolas.

Também planejo desenvolver materiais pedagógicos que possam ser utilizados em sala de aula, aproximando teoria e prática docente. A educação pública do Amazonas precisa de pesquisas aplicadas à sua realidade, e esse é o propósito central do meu trabalho: gerar impacto social, educacional e cultural.

ON Jornal: Como PhD e pesquisador da rede estadual, como o senhor enxerga hoje a relação entre a pesquisa acadêmica de alto nível e o cotidiano da escola pública? O título de doutor ajuda a encurtar essa distância?

Prof. Dr. Adneryson: Sim, sem dúvida. O título de doutor não deve ser visto como um status, mas como uma responsabilidade científica e social. Na prática, ele fortalece a credibilidade do professor-pesquisador dentro da rede pública e amplia a capacidade de desenvolver projetos educacionais fundamentados em evidências científicas.

A pesquisa acadêmica de alto nível precisa dialogar com a realidade da sala de aula, especialmente na Amazônia, onde os desafios educacionais são específicos e complexos. Quando o professor pesquisador atua na escola pública, ele se torna uma ponte entre a teoria acadêmica e a prática pedagógica, contribuindo para uma educação mais contextualizada, crítica e transformadora.

ON Jornal: Qual é o impacto que o senhor espera causar na formação das futuras gerações de amazonenses agora que o seu trabalho ganha esse selo de reconhecimento internacional?

Prof. Dr. Adneryson: Espero contribuir para a formação de uma geração de estudantes que reconheça e valorize a identidade cultural amazônica, compreendendo que os saberes indígenas possuem profundidade filosófica, pedagógica e científica. O reconhecimento internacional fortalece não apenas a minha trajetória, mas também dá visibilidade à educação produzida na Amazônia.

Meu objetivo é que os jovens amazonenses se sintam pertencentes à sua própria história, cultura e território, desenvolvendo autoestima cultural, consciência crítica e protagonismo social. Mais do que um reconhecimento acadêmico, considero esse trabalho um compromisso com a educação pública, com a interculturalidade e com a valorização dos saberes ancestrais como instrumentos legítimos de formação humana e cidadã.

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