quinta, 23 de abril de 2026
27/12/2025   08:00h - Entrevistas

PAULINHO DeCARLI Piloto amazonense fala ao ONJornal sobre a vitória esportiva da Just Motors Racing elevando o Amazonas à categoria profissional

O título da categoria P4 do Road to 1000 Milhas 2025 não veio apenas com velocidade. Veio com superação, resiliência e emoção, marcas que definiram a trajetória da Just Motors Racing na etapa decisiva disputada no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, no último domingo (21/12). Depois de uma temporada consistente, a confirmação do campeonato foi selada da forma mais simbólica possível: superando um problema grave no carro a menos de 24 horas da corrida decisiva.

 

Na véspera da prova, durante a tomada de tempo, a equipe enfrentou um duro revés. Um problema no câmbio comprometeu completamente o desempenho do carro, impedindo a Just Motors de brigar pelas melhores posições no grid de largada. Mesmo com todos os esforços da equipe técnica ao longo da manhã, não foi possível solucionar a falha a tempo da classificação, obrigando o time a encarar a corrida a partir de uma posição desfavorável.

 

O cenário, que poderia abalar qualquer equipe, foi encarado como combustível emocional. A resposta veio na pista. Com pilotagem segura, estratégia precisa e maturidade competitiva, os pilotos Paulinho De’Carli e Paulo De’Carli conduziram a Just Motors Racing em uma corrida de recuperação, ganhando posições volta a volta, administrando riscos e fazendo exatamente o que era necessário para transformar dificuldade em conquista.

 

O ON Jornal, conversou com o piloto Paulinho De’Carli, que detalhou como foi a vitória que consagrou ainda mais o Amazonas como estado protagonista nas corridas nacionais. Confira.

 

ON Jornal - Depois do problema grave no câmbio na tomada de tempo e da largada na 34ª posição, o que passou pela sua cabeça no lado emocional para chegar forte na corrida?

 

Paulinho-  Eu fui tão focado em alcançar a vitória e atingir o objetivo que, mesmo com todos os problemas pelos quais passamos, eu acreditava que a corrida só acabaria depois da largada, se o carro realmente quebrasse e não houvesse mais nenhum jeito de solucionar.

 

Quando aconteceu o problema no câmbio, eu pensei comigo na sexta-feira — o ocorrido foi no treino de sexta — e ainda tínhamos o sábado para trabalhar. Falei: “Não tenho dois dias, não fiz a tomada de tempo, mas vamos largar”. Eu estava muito confiante.

 

Tudo o que faço, eu sempre entrego nas mãos de Deus, porque acredito que o que tiver que ser, será. E, se está nas mãos de Deus e faz parte dos planos d’Ele, vai dar certo.

 

ON Jornal - Você mencionou que foi a corrida mais emocionante da sua carreira. Em que momento da prova você sentiu que a vitória na P4 e o título realmente eram possíveis?

 

Paulinho-  Quando eu larguei, estava muito focado em fazer o máximo de ultrapassagens possível, sempre com bastante cautela para preservar o carro. Na volta de apresentação, percebi que o câmbio estava bom, mas a embreagem apresentava problemas: o carro estava patinando. Ficou claro que não teríamos o rendimento de motor que esperávamos justamente por causa da embreagem. Então pensei: vou largar e fazer uma corrida consciente, tranquila. São duas horas de prova, passando os outros pilotos sem forçar demais o carro.

 

                   

 

Faltando cerca de 15 minutos para o fim, fiz a primeira troca, entregando o carro para o meu pai. Com 20 minutos, houve um imprevisto, e eu pedi ao nosso engenheiro que colocasse logo o meu pai na pista. Ele ficou cerca de 25 minutos no carro, e eu já tinha calculado que, pelo combustível colocado no tanque, a autonomia seria de aproximadamente uma hora e dez minutos. Isso me daria uma hora e dez para conquistar posições e brigar pelo título.

 

De forma inesperada, faltando 15 minutos para o final, eu estava totalmente concentrado na pilotagem quando o engenheiro entrou no rádio e disse: “Matematicamente falando, parabéns, você é campeão da categoria. E, de quebra, é o quinto colocado na geral”. Naquele momento, me emocionei muito dentro do carro. Ainda faltavam 15 minutos de corrida, e eu rezava, agradecia e orava a Deus por tudo o que estava acontecendo e por tudo ter dado certo. Foi ali que eu soube que éramos campeões, faltando apenas 15 minutos para o fim da prova.

 

ON Jornal - A recuperação volta a volta exigiu muita estratégia e maturidade. Qual foi o maior desafio na pista para equilibrar agressividade e segurança ao longo da corrida?

 

Paulinho- Foi uma das corridas mais marcantes da minha vida. Imagine: eu não fiz a tomada de tempo, larguei em último, na 34ª posição. Depois, ao rever o vídeo, percebi que, com apenas duas voltas de corrida, eu já estava em 14º na geral. Entreguei o carro para o meu pai na troca de pilotos estando em 11º. É claro que, nos boxes, há sempre variação de posições. Meu pai entrou na pista em 19º e me devolveu o carro em 15º, algo totalmente normal nesse tipo de estratégia.

 

O que tornou tudo ainda mais emocionante foi perceber que, faltando cerca de 15 minutos para o fim, eu já estava sete voltas à frente do segundo colocado.

 

ON Jornal - Correr e conquistar um título em Interlagos tem um simbolismo especial. O que essa vitória representa para você pessoalmente e para a sua trajetória no automobilismo?

 

Paulinho- Correr em Interlagos é onde tudo começou na minha carreira profissional no automobilismo. A minha primeira corrida foi nas 6 Horas de Interlagos, em 2022. Era a primeira vez que eu andava naquele autódromo. Para todo piloto, desde a infância, o sonho é correr em Interlagos. Mesmo para aqueles que não são da geração de Ayrton Senna, todo piloto sabe o peso e a história que esse lugar carrega. Imaginar que a minha trajetória começou ali torna tudo ainda mais especial.

 

Além disso, poder conquistar um título nacional justamente em Interlagos tem um significado único. Esse campeonato já nasceu grande, com mais de 30 carros por etapa competindo, e foi a primeira edição. Saber que não existiria outro piloto amazonense campeão dessa edição inaugural e que esse título ficou conosco deu um gosto ainda mais especial à conquista. Foi o primeiro campeonato completo que disputamos e, logo de cara, já saímos campeões.

 

Não tem como não afirmar o quanto isso é especial para mim, para o meu pai e para toda a equipe. Só de lembrar dessa conquista, eu já me emociono novamente.

 

ON Jornal - Esse título também colocou o Amazonas no topo do automobilismo nacional. Que mensagem você deixa para quem acompanha o projeto da Just Motors Racing e sonha em competir em alto nível, mesmo longe dos grandes centros?

 

Paulinho- Destaco a importância do primeiro piloto amazonense a chegar à Fórmula 1, que representou o auge do automobilismo no Norte do país. Após um período de perda de interesse pelo esporte, a Fórmula 1 voltou a ganhar força com uma nova gestão e com a presença de um piloto brasileiro, despertando novamente o interesse das novas gerações pelo automobilismo.

 

Nos últimos três anos, realizei um grande sonho ao fundar a primeira equipe amazonense de automobilismo, com sede em Manaus. O que começou como uma realização pessoal se transformou em um projeto profissional e em uma forma de representar o nosso estado. Tenho muito orgulho de subir ao pódio com a bandeira do Amazonas e de mostrar que o nosso estado tem pilotos competitivos.

 

Também acredito e incentivo a nova geração de jovens pilotos que está surgindo, muitos vindos do kart. Procuro ser exemplo, reforçando a importância do foco, da persistência e da fé para alcançar os sonhos. Hoje, vivo a realização de colocar o Amazonas novamente em destaque no automobilismo nacional e sigo confiante de que novas oportunidades, títulos e conquistas ainda virão para o nosso estado.

 

Números impressionantes

Ao final do campeonato, a Just Motors fechou a temporada com números expressivos: 5 corridas, 67 pontos, 3 pole positions, 5 pódios — com 3 vitórias, 1 segundo lugar e 1 terceiro — além de 3 recordes oficiais de volta mais rápida, registrados nos autódromos de Interlagos, Velocitta e Cascavel.

 

A conquista em Interlagos teve um peso ainda maior justamente pelo contexto adverso. O título foi confirmado não com facilidade, mas com entrega, união e fé, sentimentos que estiveram presentes desde o sábado difícil até a bandeirada final no domingo.

 

Amazonas no topo

 

Mais do que uma vitória esportiva, o título da Just Motors Racing representa a consolidação de um projeto sólido e profissional, que colocou o Amazonas no topo do automobilismo brasileiro. Uma equipe que mostrou que vencer não é apenas largar na frente, mas saber reagir quando tudo parece conspirar contra.

 

                         

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