A Segunda Marcha das Mulheres Indígenas foi realizada nesta sexta-feira (10), em Brasília, com ampla participação de etnias do Norte e do Amazonas. O evento encerrou duas semanas de mobilização dos povos originários que vivenciaram o julgamento do Marco Temporal pelo Supremo Tribunal Federal (STF), suspenso mais uma vez e até manifestações antidemocráticas no dia 7 de Setembro.
O Marco Temporal é a tese de que os indígenas só têm direitos às terras que ocupavam em 1988, ano da promulgação da Constituição Federal.
Representando o Amazonas, a indígena Rosimere Maria Vieira Teles da etnia Arapaso, detalhou em entrevista exclusiva ao ON JORNAL como ocorreu a Marcha e fez um balanço das semanas de acampamento e
mobilização pelos direitos indígenas, na capital federal. Confira a entrevista a seguir:
ON JORNAL – Como ocorreu a marcha, diante de toda a comoção gerada desde as manifestações do dia 7 de setembro?
Rosimere Teles- A segunda marcha foi um marco importante no contexto político em que vivenciamos, com a disputa pelas terras indígenas com ruralistas proprietários dos grandes latifundiários e outros. É um desafio muito grande vir acompanhar o julgamento do Marco Temporal que, com a burocracia foi suspenso. As delegações já começaram a retornar para as suas bases, mas dentro dos territórios de cada povos, vamos continuar acompanhando a decisão do STF. Enquanto povos indígenas continuaremos nessa luta enquanto for necessário.
ON – Além do Marco Temporal, quais as outras lutas dos povos indígenas hoje?
RT – Dentro dos nossos territórios, continua a ameaça dos garimpos ilegais, extração de madeira ilegal, caça e pesca predatória, grilagem de terras e criminalização de lideranças indígenas. Enquanto o governo brasileiro não estiver fazendo o seu papel de proteger os cidadãos brasileiros nativos - nós indígenas - será muito difícil nos sentirmos em segurança. O Estado está aí para nos proteger, mas esse estado, esse governo, no atual momento só nos massacra.
ON – E como se sobrevive diante desse quadro?
RT - Precisamos ter estratégia para o governo entender que precisa atentar e acompanhar os povos indígenas. Nossos territórios têm Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) totalmente por nós, povos indígenas, construídos. Acreditamos que essa luta nossa não seja em vão.
ON – Houve relatos de hostilidades de não indígenas com os acampados, principalmente com as caravanas de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, nos dias 6 e 7 de setembro, como está a situação agora (sexta-feira) no acampamento?
RT - No acampamento agora, mais de 1,5 mil indígenas que acompanhavam o Marco Temporal se juntaram ao movimento das mulheres indígenas. Nós fizemos um Termo de Convivência e foi tudo tranquilo por esses dias. Não revidamos provocações dos não indígenas. Conseguimos chegar até hoje dia da marcha e decidir com maturidade e com sabedoria, porque conhecemos nossos direitos e as leis brasileiras.
ON – O que acontece agora com a suspensão do julgamento do Marco Temporal pelo STF?
RT - Algumas mulheres começam a retonar hoje e amanhã de manhã para as suas bases. Fizemos nossa parte, retornamos de cabeça erguida com consciência que viemos fazer a nossa parte em defesa dos vários povos indígenas.
ON – E como foi a mobilização das mulheres dos seus locais de origem chegar em Brasília
RT – Nós indígenas só temos a contar conosco mesmo. As mulheres indígenas chegaram aqui com recurso do próprio bolso. São professoras, técnicas de enfermagem, enfermeiras, advogadas. Apenas as mulheres podem se ajudar, porque sabemos que se não nos posicionamos a gente não pode contar com o Estado.
ON – Qual mensagem a senhora gostaria de passar para todos os brasileiros?
RT – Essa marcha reflete a ausência de política pública nas nossas comunidades. Ausência de educação, saúde diferenciada, de apoio para a economia das mulheres indígenas que é sustentável.
Eu gostaria de deixar uma mensagem para toda a população brasileira, indígena, negra, quilombola, branca, de pessoas que vieram de outros países fixar aqui para crescer e formar suas famílias. Pra você que é pai de família e que é mãe, do pequeno até o grande: o Brasil um dia vai ser diferente. O Brasil será diferente desde que nós, enquanto pessoas, entendermos a importância e o valor de cada um e que aqui, todos somos iguais. Nossas famílias indígenas são iguais às famílias dos não indígenas e precisam ter a oportunidade de por seus filos para estudar, crescer, melhorar de vida, de prosperar.
Ser indígena 1.521 anos atrás era visto de forma muito pejorativa e hoje continua essa visão, porque alguns poderosos não querem ver os pequenos crescerem. Mas nós indígenas somos parte dessa sociedade.
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