Jecinaldo Sateré, líder indígena do povo Sateré-Mawé, no do município de Barreirinha, no Amazonas, tomou posse nesse mês, como Coordenador dos Direitos Sociais Indígenas, do Departamento de Promoção da Política Indigenista, do inédito Ministério dos Povos Indígenas.
O objetivo do grupo é ampliar o diálogo com os estados e municípios, para que, possam avançar na questão da gestão dos territórios indígenas e no fortalecimento da política indigenista.
O líder Sateré-Mawé, é um ativo militante da causa desde os anos 1980, tem o aval de Sonia Guajajara, titular do Ministério dos Povos Indígenas (MPI); da presidente da Funai, Joenia Wapichana e, tem apoio da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e de outras entidades indígenas e indigenistas da Amazônia.
Em entrevista exclusiva ao ON Jornal, o líder Jecinaldo falou sobre como irá trabalhar em uma coordenação tão importante, quais serão os primeiros passos e o que esperar de sua administração. Confira.
ON Jornal- O movimento indígena é considerado o maior movimento social no Brasil. Como foi, para os povos, a trajetória até aqui?
Jecinaldo Sataré- Para chegarmos onde estamos hoje, nós perpassamos muitas batalhas. Tivemos que acampar na esplanada dos ministérios, derramar sangue dos nossos irmãos. Tanto é que Sônia Guajajara assumiu o Ministério dos Povos Indígenas, e em seguida explodiu o caso yanomami. Nisso a gente já começou a correr atrás dessa questão emergencial. A Sônia tem feito um trabalho de composição do ministério, e nessa composição eu fui chamado. No dia 9 de maio ocorreu a minha posse em Brasília, e estamos com essa missão de fazer essa ligação entre Brasília e a Amazônia, com uma voz regional para mudar a situação que aqui se encontra.
ON Jornal- Podemos dizer que existe realmente uma nova movimentação do governo de priorizar representantes indígenas e seus interesses?
Jecinaldo Santeré- Hoje a nossa ordem é “indígena cuidando de indígena”. Nós vivemos um pesadelo no passado recente, de crueldade. Nós não conseguimos entender tanta falta de humanidade. Mas o povo indígena sempre foi um povo resistente e valente. Por isso a gente se fortaleceu, trabalhamos com os aliados da causa indígena. Inclusive, queria parabenizar o ON Jornal por caminhar conosco nesses momentos difíceis. Agora, como vocês observam, temos um carinho e um respeito pelo presidente Lula na pauta indígena. Os espaços podem ser diferentes, mas a luta continua para fazer a diferença que nós tanto queremos, como a demarcação dos nossos territórios.
ON Jornal- Como as lideranças indígenas enxergam a relação entre o desenvolvimento do Brasil e a preservação?
Jecinaldo Santeré- Primeiramente, precisamos salvaguardar os direitos dessas populações. A população indígena não é contra o desenvolvimento no Brasil. Nós somos contra a forma que a nossa Amazônia tem sido saqueada. Estamos dispostos a discutir um novo formato de desenvolvimento econômico, social e sustentável para nossa região, onde acolhe o ribeirinho, caboclo e quilombola.
ON Jornal- Para que essas mudanças, e essa atenção ao desenvolvimento ocorra, o que precisa ser feito no Ministério novo do governo Lula?
Jecinaldo Santeré- O Ministério dos Povos Indígenas está passando por uma reestruturação, composição de equipes, definindo metodologias e estratégias de ação. É um ministério novo, e por ser novo, é um PPA (Plano Plurianual) do governo anterior. Estamos fechando essa discussão em Brasília, para garantir essas linhas de ações, como gestão de territórios.
Nesse momento novo de construção é que vamos poder engrenar um pouco mais nesse segundo semestre, mas com a ciência de que os orçamentos para as causas indígenas foram praticamente zerados. Só agora estamos trabalhando, inclusive com outros ministérios, em outros planos e projetos, principalmente a partir de 2024.
ON Jornal- E quais serão as prioridades a serem pautadas inicialmente?
Jecinaldo Santeré- Algumas questões emergenciais têm acontecido no Brasil. Sônia tem dado uma atenção especial à causa Yanomami, mas há casos como os Pataxó na região da Bahia, os Guarani-Kayowá na região centro-Oeste, os povos Xokleng na região Sul com a questão do Marco Temporal, que é inclusive uma das causas que lutaremos contra.
Todos esses contextos compõem essa batalha da bancada do cocar, na busca por espaços no governo, onde possamos fazer a diferença, para finalmente dizer que o indígena está cuidando da sua própria causa.
ON Jornal- Sabemos que um de seus primeiros compromissos será no município de Autazes-AM. Quais são as questões a serem discutidas na região?
Jecinaldo Santeré- O conflito que ocorre em Autazes e região é por conta do potássio, que é um minério fertilizante, o qual o Brasil precisa trazer da Bielorrúsia, e por conta da guerra na Ucrânia, essa transação se dificultou. O Amazonas detém essa potência, e ela está próxima do território indígena, podendo mesmo estar dentro de territórios. Esse debate todo tem sido acirrado. De um lado os povos indígenas, do outro lado a empresa, de outro a classe política, de outro o Ministério Público. E o papel do ministério dos Povos Indígenas é garantir desenvolvimento sim, mas não de qualquer jeito, nós viemos com essa missão.
Vamos dialogar para garantir os direitos da população local, cuidar também da questão ambiental, e lembrar do desenvolvimento do Amazonas, que também está em pauta. Alguns dos nossos projetos são de interesse nacional, mas não podemos repetir casos como o Yanomami. Temos muitos exemplos negativos na Amazônia, e precisamos parar com isso.
ON Jornal- Quais seriam suas considerações e mensagem a todos os leitores e parentes indígenas que lutam a mais de 500 anos pela sua sobrevivência?
Jecinaldo Santeré- Sim, dos indígenas e do povo amazônida também. A água que chega na torneira do manauara vem de alguma nascente. O efeito das destruições da nossa mata é danoso para todos nós. A minha geração daqui a pouco termina, mas que vida eu vou deixar para a futura geração? Um Amazonas destruído? É nessa reflexão que vem a Emergência Climática, que é uma discussão mundial e que eu quero deixar para todos.
Nós temos apenas três lugares no mundo com florestas que garantem a biodiversidade do nosso planeta, e a Amazônia é o maior deles. Por isso a questão indígena não é somente uma causa “dos indígenas”, é um apelo mundial.
Para ver a entrevista completa com Jecinaldo Sateré, Coordenador Geral dos Direto Sociais Indígenas, acesse o vídeo abaixo:
Copyright © 2021-2026. Onjornal - Todos os direitos reservados.