quinta, 23 de abril de 2026
27/09/2025   08:00h - Entrevistas

Melissa Toledo Vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas fala ao ONJornal. com, da relevância da instituição no Comitê de Saneamento básico para microrregião

A arquiteta e urbanista Melissa Toledo, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-AM), destacou a relevância da presença da instituição no Comitê de Saneamento Básico da Microrregião da SEDURB, da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Estado do Amazonas, cuja eleição acontecerá no próximo dia 7 de outubro de 2025.

 

O CAU-AM atua como voz técnica e ética na defesa do acesso ao saneamento para áreas historicamente negligenciadas, como periferias, comunidades rurais e assentamentos informais.



Segundo Melissa, a participação do CAU-AM no comitê é estratégica por reunir o olhar técnico e integrado do urbanismo na formulação e acompanhamento de políticas públicas de saneamento.

 

O ON Jornal, conversou com Melissa Toledo que explicou mais sobre as atividades do Conselho e como a instituição atua para dar melhor qualidade de vida e estrutura para cidade. Confira.

 

ON Jornal - Qual a importância da presença do CAU-AM no Comitê de Saneamento Básico da SEDURB e de que forma essa participação fortalece as políticas públicas no AM?

 

Melissa Toledo - Sob a ótica do arquiteto e urbanista, ressalto: Planejamento urbano-territorial: arquitetos e urbanistas têm formação específica para pensar o uso racional do solo, o que é essencial para infraestrutura de saneamento em áreas complexas do Amazonas, como comunidades ribeirinhas e indígenas.

 

Visão integrada da cidade: a contribuição do urbanismo permite relacionar saneamento básico com habitação, mobilidade, meio ambiente e infraestrutura, evitando soluções isoladas.

 

Defesa da população vulnerável: o CAU-AM atua como voz técnica e ética na defesa do acesso ao saneamento para áreas historicamente negligenciadas, como periferias, comunidades rurais e assentamentos informais.

 

Soluções adaptadas à realidade amazônica: a arquitetura e urbanismo têm capacidade técnica para propor alternativas adequadas ao clima, geografia e cultura local, inclusive considerando saberes dos povos originários e outras várias ações.

 

ON Jornal - O planejamento urbano-territorial é um assunto crucial na organização de uma cidade. Como os arquitetos e urbanistas podem contribuir para soluções mais eficazes em áreas ribeirinhas, indígenas e de difícil acesso?

 

Melissa Toledo - O planejamento urbano-territorial é, de fato, um componente essencial na construção de cidades mais justas, resilientes e sustentáveis. Nesse contexto, nós arquitetos e urbanistas desempenhamos um papel estratégico ao elaborar soluções que respeitem as especificidades socioculturais, ambientais e geográficas de áreas como comunidades ribeirinhas, indígenas e regiões de difícil acesso.

 

Podemos contribuir por meio de metodologias participativas, que envolvem diretamente as populações locais no processo de diagnóstico, planejamento e implementação das propostas urbanas. Ao considerar os saberes tradicionais e os modos de vida dessas comunidades, é possível desenvolver projetos que não apenas respeitem, mas fortaleçam suas identidades culturais.

 

Em áreas ribeirinhas, por exemplo, podemos propor soluções adaptadas ao regime de cheias, como moradias elevadas sobre palafitas ou sistemas construtivos que utilizem materiais locais e técnicas tradicionais, integrando conhecimento técnico com práticas vernaculares. Já em territórios indígenas, é essencial compreender os aspectos cosmológicos, territoriais e de governança próprios de cada povo, promovendo um planejamento que não imponha lógicas externas, mas que se alinhe aos seus princípios de ocupação e uso do solo.

 

Frisamos, ainda que o uso de tecnologias como mapeamentos colaborativos, georreferenciamento, drones e similares contribuem, e muito, para o processo de planejamento urbano territorial.

 

ON Jornal - De que maneira a visão integrada da cidade ajuda a relacionar saneamento básico com outras áreas, como habitação, mobilidade e meio ambiente?

 

Melissa Toledo - Para arquitetos e urbanistas, encarar a cidade de forma integrada significa enxergá-la não como um conjunto fragmentado de problemas isolados, mas como um sistema interdependente, em que cada área – saneamento, habitação, mobilidade, meio ambiente – influencia e é influenciada pelas outras. Essa abordagem traz vários benefícios práticos, por exemplo:

 

O saneamento básico melhora as condições de saúde e higiene, mas só pode funcionar bem se as habitações forem adequadas e bem localizadas, com infraestrutura planejada desde o início.

 

A mobilidade se beneficia quando os serviços de saneamento estão presentes: ruas limpas, drenagem funcional, ausência de obstáculos que prejudiquem deslocamentos.

 

Integrar essas áreas permite maior eficiência de recursos, evita retrabalho ou custos futuros elevados, promove equidade (melhor atendimento a populações vulneráveis), aumenta a resiliência urbana frente a crises como enchentes ou epidemias, e melhora a qualidade de vida.

 

ON Jorna -O CAU-AM tem enfatizado a defesa da população mais vulnerável. Quais são os principais desafios para garantir o acesso ao saneamento em comunidades periféricas e rurais?

 

Melissa Toledo - Desafios para o acesso ao saneamento em comunidades periféricas e rurais são:

Acesso geográfico difícil: Muitas comunidades estão localizadas em áreas de difícil acesso, como regiões ribeirinhas e rurais isoladas, o que dificulta a implementação de sistemas de saneamento e aumenta os custos operacionais

 

Infraestrutura precária ou inexistente: A falta de redes de água potável, esgoto e manejo adequado de resíduos sólidos comprometendo a saúde pública e o meio ambiente

 

Custos elevados de implantação e manutenção: A instalação e manutenção de sistemas de saneamento em áreas remotas exigem investimentos onerosos.

 

Baixa capacidade institucional local: A falta de organizações comunitárias estruturadas e de capacitação técnica dificulta a gestão eficiente dos serviços de saneamento.

 

Desigualdade no acesso aos serviços: Apesar dos avanços, ainda há uma grande disparidade no acesso ao saneamento básico entre áreas urbanas e rurais, com muitas comunidades periféricas e rurais sem acesso adequado.

 

5-Como a experiência e os saberes tradicionais dos povos originários podem ser incorporados a soluções de saneamento adaptadas à realidade amazônica?

 

Melissa Toledo - A incorporação dos saberes tradicionais dos povos originários é essencial para o desenvolvimento de soluções de saneamento adaptadas à realidade amazônica. Projetos como os implementados pela Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) exemplificam essa integração, vale a pena se aprofundar nesse estudo de casos.  Na aldeia indígena Herekohaw, no Pará, foram instalados sistemas de captação de água da chuva e fossas ecológicas, respeitando as práticas culturais e promovendo a autonomia das comunidades. Além disso, a elaboração de cartilhas bilíngues, isso é, no idioma da etnia, facilita a compreensão e a replicação dessas tecnologias pelos próprios indígenas.

 

Essas iniciativas demonstram que é possível aliar conhecimento científico e tradicional para criar soluções sustentáveis e culturalmente adequadas, garantindo acesso à água potável e ao tratamento de esgoto em comunidades isoladas da Amazônia.

 

ON Jornal-Na sua avaliação, quais serão os principais avanços esperados a partir da atuação interdisciplinar desse comitê e como o CAU-AM pretende acompanhar e influenciar os resultados?

 

Melissa Toledo - A atuação interdisciplinar do comitê do CAU-AM visa promover avanços significativos na integração de saberes técnicos, culturais e ambientais, especialmente em regiões como a Amazônia. A colaboração entre arquitetos, urbanistas, engenheiros, biólogos dentre outros ocais é essencial para desenvolver soluções de saneamento que respeitem as especificidades socioculturais e ambientais dessas áreas.

 

Principais avanços esperados:

1.     Soluções de saneamento culturalmente adaptadas: Desenvolvimento de tecnologias e práticas de saneamento que considerem os saberes tradicionais das comunidades, garantindo eficácia e aceitação local.

 

2.     Fortalecimento da gestão comunitária: Capacitação das comunidades para a gestão e manutenção dos sistemas de saneamento, promovendo autonomia e sustentabilidade.

 

3.     Integração de políticas públicas: Articulação entre diferentes esferas de governo e sociedade civil para implementar políticas de saneamento que atendam às necessidades específicas das comunidades.

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