Monday, 15 de June de 2026
14/06/2026   08:00h - Mundo Antigo

Mané Garrincha: o anjo das pernas tortas que ganhou a Copa sem Pelé em 1962

Manuel Francisco dos Santos, conhecido mundialmente como Garrincha, foi um dos maiores futebolistas da história, reverenciado como o "anjo das pernas tortas". Nascido em Pau Grande (RJ), em 28 de outubro de 1933, ele brilhou como ponta-direita do Botafogo e foi o principal protagonista do Brasil na conquista das Copas do Mundo de 1958 e 1962.

 

Nascido em uma família humilde, o jogador ganhou o apelido de "Garrincha" por causa de um pequeno pássaro da região, que sua irmã o via caçando. Garrincha nasceu com uma deformidade congênita: sua perna direita era 6 centímetros mais curta e virada para fora, e a esquerda era virada para dentro. O que poderia ser um impedimento para o esporte transformou-se na sua maior arma, permitindo-lhe realizar dribles desconcertantes e imprevisíveis.

Em 1962, o ano da Copa sem Pelé, em que Garrincha fez o seu papel e o do gênio ausente, um exame médico aparentemente de rotina, para apurar “umas dores muito fortes no joelho”, chegou a um laudo inquietante. “Eu levei Mané ao ortopedista Mário Jorge”, conta o jornalista Sandro Moreyra, um dos responsáveis pela divulgação da quantidade de histórias engraçadas sobre o jogador. A sentença, no entanto, veio depois de três horas e não era cômica: “Se não parar de jogar durante três meses, estará inutilizado para o futebol”. Parecia exagerado, principalmente para o Botafogo, que precisava de Mané numa excursão, sob pena de perder 50% dos lucros. A operação foi adiada. O fim da carreira, automaticamente, antecipado.

Mané, o otimista, concordava com seu time. Ele já era campeão carioca pelo Botafogo duas vezes (em 1957 e 1961), ganhara o Torneio Rio-São Paulo em 1962, além das duas Copas. Era a época em que o Botafogo considerava “normal, da personalidade dele”, que Garrincha fosse a Pau Grande jogar pelada com amigos. Quando o joelho começou a doer, depois de 1963, o Botafogo reclamou pelos longos períodos que Garrincha passava em tratamento. Foi operado dos meniscos naquele ano e, como o médico era de fora, o clube não quis pagar.

 

No ano seguinte, com os jogadores “come e dorme” (os que moram no clube e treinam sem grandes esperanças de chegar a algum lugar), perdera o posto de titular e era multado em 50% do salário por se recusar a excursionar pelo interior (“Se não sou titular no Maracanã, não sou titular em nenhum outro lugar”, defendia-se ele). Já era chamado de “moleque” no próprio boletim do clube, numa nota assinada pelo diretor de propaganda. Da lenda, então, restava só a lembrança.

 

 

A triste sorte de Garrincha, nessa época, não chegou a surpreender ninguém. João Saldanha, técnico do Botafogo em 1957, ano em que Garrincha ganhou seu primeiro campeonato pelo time, lembra o episódio do “tal de Nílton Santos” como sintoma muito claro de sua alienação e do que estava para acontecer. Garrincha, diz ele, não é um poeta: “É um primitivo, um matuto, meio índio, meio selvagem, criado num submundo de miséria e ignorância, um lugar atrasado onde nem o trem parava”.

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