quinta, 23 de abril de 2026
25/06/2022   17:30h - Especial

Mais do que um esporte, a capoeira é uma forma de expressão cultural, disse o mestre Ronaldo Vargas

Com berimbau nas mãos e gingado, há 51 anos o Mestre Ronaldo Vargas vem fazendo a diferença na vida dos amazonenses. Ele que prática a capoeira desde os seus 7 anos contou para o On Jornal, sobre esse símbolo de resistência e cultura para o nosso país.

 

Mestre Ronaldo explicou que, a capoeira é uma expressão cultural e luta afro-brasileira criada pelos negros africanos que foram escravizados em território brasileiro. Segundo ele, essa prática foi desenvolvida pelos povos escravizados como uma forma de defesa às brutais violências praticadas pelos seus senhores.

 

Porém aqui no Brasil nós temos a nossa capoeira própria, que é a capoeira regional, Angola e a nossa capoeira tribal. Posso dizer tribal porque elas são das nossas tribos indígenas. Assim com as tribos africanas praticavam a mignolo lá, nossas tribos indígenas praticam as artes marciais daqui que são semelhantes e que foram adaptadas, e hoje nós temos a nossa capoeira própria, uma capoeira altamente amazônica”, esclareceu o mestre de capoeira.

 

Ronaldo reforçou que, além de ser uma luta, a capoeira é arte, música e cultura popular. As pessoas tem aquela questão de que a capoeira nasce na Bahia. Não, os navios negreiros que ancoraram na Bahia, muitos deles foram para Maranhão, Recife, Fortaleza, Rio de Janeiro, enfim para vários estados. E o Amazonas ele tem essa propriedade de ter uma capoeira própria, ligada a todo Brasil e mundo”, contou. 

O mestre Ronaldo contou que apesar da capoeira ser uma só, ela pode ser dividida em dois tipos principais: a capoeira angola e a regional.

  

Existe uma capoeira tradicional que era aquela capoeira de rua, que se você quiser usar instrumento você usa, se não só na palma, todo mundo se junta e brinca. E existe a capoeira que hoje você vê, a capoeira de show que tem o berimbau, o atabaque, o pandeiro, o agogô entre outros instrumentos. Mas a capoeira ela tem essa adversidade e é uma arte altamente de agregação, uma arte que vem pra unir e não desunir, todo mundo pode praticar, não existe idade, a hora que você achar que pode praticar ela te da várias formas de você praticar capoeira. Se você não joga, você canta, toca, escreve, fala sobre ela e está participando do mesmo processo’, enfatizou.

 

 

O capoeirista contou que a capoeira antes era vista como um ato marginal. “A impressão que eu tenho hoje, é que alguns anos atrás a capoeira era vista como arte de malandros, de negros ‘desocupados’, de pessoas que não queriam saber de trabalhar. Na verdade, não era isso, o negro quando ele veio para o Brasil até hoje ele não foi indenizado pelas perdas de seus antepassados, muitas pessoas morreram na senzala e em navios negreiros. Nós não temos ainda um Brasil que reconheça que os descendentes de negros escravos não receberam nenhum tipo de indenização e favorecimento, tudo foi difícil para o negro e vários dos seus direitos foram negados, como ir à escola. Foram inconstantes as lutas, barreiras quebradas para se ter uma igualdade social, salientou Vargas.

 

Em 2014, a UNESCO reconheceu a roda de capoeira como Patrimônio Cultural e Imaterial da Humanidade.Eu vejo a capoeira com essa grande resistência queda essa liberdade para que a gente possa sair para rua através das músicas das ladainhas, é expressar isso aí, a história do negro do dia a dia, a história do ser humano, aqui não só no Brasil como no mundo a fora”, destacou Ronaldo Vargas.

 

O mestre contou que depois de uma luta intensa, a capoeira se tornou um esporte genuinamente brasileiro. Segundo ele, Mais do que um esporte, a capoeira é uma forma de expressão cultural.

 

A capoeira é muito rica é a única arte marcial que se define em três coisas, a cultura porque ela tem a musicalidade, shows. A arte marcial porque ela foi uma arte de defesa pessoal do negro e de libertação na época da escravidão. E, uma arte de esporte porque hoje e praticada como um esporte para qualidade de vida. Fora isso nós temos o contexto histórico, geográfico, antropólogo que a gente pode associar tudo isso que a capoeira nos oferece, a língua portuguesa que é cantada lá fora”, afirmou.

 

Legado – Mestre Ronaldo Vargas também enfatizou a sua alegria em poder acompanhar a evolução dos seus filhos e netos na Capoeira.

 

Hoje me sinto um mestre de capoeira realizado, com filhos que fazem parte dessa arte, casado há 35 anos e através da capoeira e com a graça de Deus consegui criar os meus filhos. Tenho uma filha mestra de capoeira com 33 anos, um filho contramestre de capoeira de 31 e uma professora de capoeira aos 29 anos de idade, então a capoeira me deu muita coisa. Ainda tem os netos com 10 e 4 anos de idade, já dentro da capoeira, respirando o mesmo ar, que lá atras eu respirei. Talvez se todo mundo tivesse que usar o oxigênio da capoeira muita gente não teria morrido na pandemia de Covid-19, precisando de um oxigênio que foi negado a muitas vidas. E o meu oxigênio é a capoeira”, finalizou.

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