A Justiça Federal prepara uma série de julgamentos inéditos contra os apontados “barões do ouro” da Amazônia, acusados de liderar um esquema criminoso que movimentou mais de R$ 10 bilhões e escoou cerca de 20 toneladas de minério extraído ilegalmente de reservas ambientais e territórios tradicionais. Com epicentro em Manaus, as investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), consolidadas a partir das operações Sisaque, Ricezione e Emboabas, detalharam uma arquitetura logística e financeira transnacional que conectava o garimpo predatório na floresta a refinarias na Suíça e polos joalheiros na Itália, além de mercados nos Estados Unidos e Oriente Médio.
A engrenagem criminosa começou a ruir após interceptações estratégicas em aeroportos brasileiros. Em janeiro de 2020, agentes federais detiveram no Aeroporto Internacional de Manaus o empresário Brubeyk Garcia Nascimento e compradores norte-americanos tentando embarcar para Nova York com 35 quilos de ouro bruto amparados por documentação fria. Um ano e meio depois, em agosto de 2021, um jato executivo foi interceptado no Campo de Marte (SP) transportando mais 52 quilos de ouro em lingotes. A partir dessas apreensões, a PF mapeou o ciclo completo da fraude: desde a extração predatória financiada em terras indígenas como Munduruku, Kayapó e Yanomami, marcada pelo uso de mercúrio e destruição ambiental, até a lavagem de ativos por meio de falsos laudos laboratoriais e brechas na emissão de notas fiscais por Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (DTVMs).
O esquema utilizava o artifício da presunção legal de boa-fé para legalizar minério clandestino sob a fachada de "ouro reciclado", injetando os valores na economia formal por meio de empresas de fachada que movimentaram bilhões de reais. A etapa final contava com a aviação executiva privada para despachar o metal rumo ao mercado internacional. Com a conclusão das denúncias pelo MPF, os réus enfrentarão julgamentos históricos na Justiça Federal, marcando um dos golpes mais duros desferidos contra a infraestrutura financeira do garimpo ilegal na Região Norte.
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