Em um esporte no qual reflexos rápidos, precisão milimétrica e capacidade de antecipação podem definir uma partida em poucos segundos, construir uma carreira duradoura exige muito mais do que talento. É preciso disciplina, resistência psicológica e disposição para superar obstáculos que, muitas vezes, começam muito antes de a bola cruzar a rede. A trajetória de Israel Barreto reúne essas características. Natural do Amazonas e formado esportivamente em Manaus, o mesatenista tornou-se um dos nomes de referência da modalidade no estado, alcançando resultados expressivos no cenário nacional, participando de competições internacionais e assumindo responsabilidades que ultrapassam os limites da mesa de jogo. Atleta, treinador e dirigente esportivo, Israel atravessou diferentes fases do tênis de mesa brasileiro. Começou em uma época na qual a estrutura da modalidade no Amazonas era limitada, enfrentou dificuldades para competir fora da região e, ao longo dos anos, conquistou espaço entre os principais jogadores do país. Os resultados obtidos ao longo da carreira, somados ao trabalho desenvolvido na organização e na promoção da modalidade, fizeram de Israel Barreto uma figura importante para compreender não apenas o passado do tênis de mesa amazonense, mas também seus desafios e suas perspectivas de futuro.
Você poderia contar um pouco sobre quem é Israel Barreto e suas origens?
- Meu nome é Israel Azevedo Barreto, presidente da Federação de Tênis de mesa do Amazonas. Sou amazonense, nascido em Manaus, sou seis vezes campeão brasileiro, atual campeão sul-americano. Participei do Mundial na China pela seleção brasileira, campeão sul-americano, latino-americano e tenho diversos outros títulos por esse esporte. O Tênis de Mesa surgiu na minha vida por acaso e iniciei ele na Fundação Vila Olímpica de Manaus, que hoje é a SEDEL. Naquele primeiro momento, eu tive o primeiro contato com o esporte por meio do Sr. Clóvis, o Williams, Dorval e o Enyvaldo. Esses foram os meus treinadores que me levaram a chegar a ser campeão, campeão brasileiro e a chegar no Mundial na China. E a minha trajetória foi muito difícil, sem apoio, meus pais não tinham condições. Com o tempo, eu comecei a conquistar vários resultados e o estado que é mais forte que é São Paulo, Santa Catarina, Paraná, começaram a fazer várias propostas para mim. Foi quando aos 22 anos, eu tive que abandonar o Amazonas para jogar por Fortaleza, fiquei um tempo, depois comecei a jogar em São Paulo e depois consegui voltar de novo para jogar em Manaus. Hoje estou em Manaus, atuando como presidente da federação, continuo ainda treinando como atleta profissional.
Por que a paixão pelo tênis de mesa?
-E a paixão do tênis de mesa hoje, ela veio devido às circunstâncias da minha vida, né? Eu nunca imaginei que eu ia ser o Israel, o campeão brasileiro. Nunca imaginei que o Israel seria o Presidente da Federação. Nunca imaginei que o Israel fosse fazer uma faculdade. Filho de pais separados, fui morar numa invasão. Quando vim para São Paulo, vim para São Paulo na raça, né? Não tinha condições de pagar treinamento, nem de comer bem. Ficava no alojamento sozinho e com isso as pessoas foram vendo a minha dedicação, a minha força de vontade. Fui ganhando dos atletas que já eram da Seleção Brasileira, como o atleta Hugo Oyama, que era o atleta mais forte que tinha no Brasil, e entre outros que eram da Seleção Brasileira. E a minha paixão lá foi se dando cada vez mais or ser da região Norte. Nós vínhamos para qualquer outra parte do Brasil e éramos menosprezados, sofriamos bullying, né? E com isso foi criando uma força maior dentro do Israel de superar, de tentar conseguir levar o Estado do Amazonas e mostrar que eu poderia conseguir, mesmo estando no Amazonas, onde poucos pensavam que eu não conseguiria ou que não sairia alguém um dia da Seleção Brasileira ou um dia para uma competição a nível nacional.
Como é ser atleta profissional?
-Como atleta profissional, eu jogo pela Federação de São Paulo. Sou atleta de São José do Rio Preto, onde eu tenho um contrato de 12 meses com eles e todo ano se renova esse contrato. E hoje, ser atleta de tênis de mesa, profissional, jogar em São Paulo, ser presidente da federação, ter um clube como eu tenho não é fácil. Tem que gostar e tem que viver do esporte, tem que estar no meio do esporte. Se você não tiver, você não consegue. Mas, principalmente, tem que gostar. Porque as dificuldades são grandes, né? Nós tentamos ajudar os outros que estão chegando, sabemos das dificuldades, e sem o apoio de família, sem patrocinadores, sem o apoio do Estado, fica muito mais difícil. Eu fui uma exceção.
Quando chegou o desafio de ser presidente da federação e como é conciliar aulas, ser atleta profissional e ser presidente?
- Deus me abençoou para poder estar aqui e estar falando esse testemunho. E hoje, o que eu mais tento é desenvolver a modalidade, tentar trabalhar na modalidade para que ela se torne uma modalidade não só do ping-pong, mas uma modalidade olímpica e profissional. Com isso, os desafios são grandes, porque você tem que abrir mão de várias situações. Tem que abrir mão, às vezes, do seu lazer, tem que abrir mão, às vezes, da família, tem que abrir mão, às vezes, do seu próprio trabalho, de dar aula para poder buscar os interesses da federação ou do tênis de mesa. Com isso, o tênis de mesa hoje, o que eu mais tento fazer é incentivar as pessoas e mostrar para elas os caminhos que eles têm que seguir para que possam sair dali um campeão ou que possam trabalhar com o esporte.
-Graças a Deus, consegui estar aqui contando essa história. Essa história do esporte foi assim, dolorida, meus pais se separaram, foi mais difícil ainda, mas eu tive o apoio de pessoas que me colocaram ali naquele momento e me dando incentivo, como apareceu Clóvis, Dorval, Williams, Nivaldo. Foram pessoas que fizeram parte da minha vida e que não eram da minha família, mas que Deus os colocou no tempo certo. E é isso, hoje estamos trabalhando. Hoje a Federação de Tênis de Mesa tem 11 clubes, três que são um em Manacapuru, um em Iraduba e um em Presidente Figueiredo. E oito clubes em Manaus, espalhados por várias regiões do Amazonas, de Manaus. Então, hoje a gente tenta levar o tênis de mesa. Poucas pessoas conhecem essa história, conhecem o tênis de mesa, o potencial que nós somos. Nós estávamos como os três primeiros do Brasil. Hoje, acredito que nós somos o sétimo, né? Muita coisa mudou. Antes nós tínhamos um centro de treinamento que dava condições para os atletas, hoje nós não temos mais. Então, isso fez com que o tênis de mesa e o esporte no Amazonas ficassem cada vez mais longe. Antes nós tínhamos uma bolsa atleta, hoje nós não temos mais. Então, esses incentivos que São Paulo, Santa Catarina e Paraná têm, são coisas que a gente não tem, que fazem o atleta do Amazonas desistir mais fácil, para buscar trabalho e dar sustento à sua família.
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