Cacique conta como a infância no interior do Amazonas, a luta pela terra, a educação e a experiência em movimentos sociais moldaram sua trajetória como liderança indígena em Manaus
Da infância vivida às margens do rio Mapiá, próximo ao município de Borba, no interior do Amazonas, até a liderança de uma das principais comunidades indígenas urbanas de Manaus. A trajetória de Ismael Franklin Gonçalves Munduruku é marcada por trabalho, educação, militância social e participação na organização de comunidades. Filho de Manuel Barroso e Dona Iracema, neto de Manel Espanha, liderança Munduruku que viveu até os 109 anos, Ismael cresceu como caçador, pescador e agricultor antes de se tornar cacique e uma das principais lideranças do Parque das Tribos.
A história começou ainda na juventude, quando Ismael passou a atuar pela demarcação e ampliação de territórios indígenas. Aos poucos, a vontade de estudar também ganhou espaço em sua vida. Em 2006, mesmo sem ter concluído o ensino médio, prestou vestibular para Medicina na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e foi aprovado. A falta da formação escolar necessária, porém, impediu naquele momento a continuidade do curso. Anos depois, em 2013, voltou a ingressar na UEA, desta vez para a área de Engenharia, escolhendo a agrimensura, justamente por enxergar na profissão uma ferramenta para trabalhar com demarcação, georreferenciamento e regularização fundiária.
A atuação comunitária acompanhou essa trajetória. Ismael participou da criação de organizações indígenas, cooperativas, associações e comunidades, além de atuar em movimentos sociais ligados à agricultura familiar, moradia e regularização de terras. Em Manaus, esteve entre as lideranças envolvidas na criação da União dos Povos Indígenas de Manaus (UPIM), organização que também participou da construção do Parque das Tribos. A comunidade, localizada no Tarumã-Açu, reúne indígenas de dezenas de etnias e é reconhecida pelo poder público como bairro indígena.
Ao longo dos anos, Ismael também ocupou funções públicas e continuou atuando na organização comunitária. No Parque das Tribos, defende um modelo de gestão baseado, segundo ele, na participação dos moradores e na escolha democrática das lideranças. Em 2026, seu nome foi oficializado pela federação formada por Rede Sustentabilidade e PSOL para disputar uma vaga ao Senado pelo Amazonas.
Em entrevista ao On Jornal, Ismael relembrou a infância no interior e na capital do Amazonas, falou sobre a influência do pai, os períodos de dificuldade em Manaus, a formação profissional, a criação do Parque das Tribos e sua entrada na política. Ismael também explicou por que decidiu disputar uma vaga no Senado e como pretende atuar caso seja eleito.
ON JORNAL: Antes de falarmos sobre o cacique, quem é Ismael Franklin Gonçalves? De onde vem essa história?
ISMAEL MUNDURUKU: Ismael Franklin Gonçalves é o menino do rio Mapiá, do município de Borba. Eu cresci lá sendo caçador, pescador e agricultor. Fui pescador durante muitos anos da minha vida. Para sobreviver, eu pescava para vender, eu e meu pai caçávamos para vender também na cidade e fazíamos muita farinha. Sou filho de Manuel Barroso e Dona Iracema, que vivem até hoje no rio Mapiá.
Sou da aldeia Mamiá e neto de Manel Espanha, que viveu até os 109 anos e foi uma grande liderança do povo Munduruku. Também sou neto de Judith Cardoso Munduruku, de uma das famílias tradicionais do nosso povo no Amazonas e fora dele. Cresci convivendo com meus avós e com a nossa comunidade.
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ON JORNAL: E como foi essa mudança do interior para Manaus?
ISMAEL MUNDURUKU: Minha história com Manaus começou ainda antes de eu vir definitivamente. Minha mãe teve gestações e partos muito difíceis e, em algumas ocasiões, precisávamos vir para a cidade. Meu irmão mais velho, Israel, teve um problema muito grave no pulmão e ficou dois anos e seis meses internado. Minha mãe permaneceu com ele no hospital durante esse período.
Foi uma mulher que sofreu muito, assim como meu pai, mas os dois nunca abandonaram os filhos. Aos 27 anos, decidi vir definitivamente para Manaus. Eu já era cacique do rio Mapiá, já tinha uma atuação de liderança e muita vontade de estudar. Eu via as pessoas trabalhando nos órgãos públicos e ficava perguntando como elas tinham conseguido aquelas profissões. Quando descobria que era preciso estudar, aquilo despertava ainda mais em mim essa vontade.
ON JORNAL: Você chegou a tentar Medicina. Como aconteceu essa história?
ISMAEL MUNDURUKU: Em 2006, sem saber que poderia ser difícil, prestei vestibular para Medicina na UEA e passei. Fiz a segunda prova e passei novamente. Só que tive um problema na matrícula porque não tinha o ensino médio completo. Então precisei voltar a estudar para concluir essa etapa.
Foi muito difícil conciliar escola, faculdade e família. Eu já era casado e tinha filhos. Minha filha Sara nasceu justamente no ano em que vim para Manaus. Eu precisava trabalhar para sustentar minha família e, ao mesmo tempo, queria estudar.
ON JORNAL: E você acabou encontrando outro caminho profissional, certo?
ISMAEL MUNDURUKU: Em 2013, passei novamente no vestibular da UEA, dessa vez para a área de Engenharia. Escolhi a agrimensura porque era diretamente ligada àquilo que eu já vivia: demarcação de terras, georreferenciamento e regularização fundiária. Eu pensei que poderia utilizar esse conhecimento para ajudar os parentes e outras pessoas a regularizar suas terras.
Me formei, me especializei e hoje vivo dessa profissão. Trabalho regularizando imóveis, fazendo levantamento topográfico, demarcação e georreferenciamento. Como militante de movimentos sociais, durante muito tempo fiz muitos trabalhos gratuitamente pela causa. Demorou para eu conseguir viver exclusivamente da profissão.
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ON JORNAL: Antes da formação e da atuação como liderança, você também passou por trabalhos bastante diferentes?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu fui carregador no porto de Manaus. Quando cheguei à cidade, não consegui emprego imediatamente e fui para o porto porque já tinha trabalhado como carregador em Borba. Só que lá era diferente. Havia muita gente armada, pessoas bêbadas e drogadas, e o trabalho muitas vezes começava de madrugada. Era um ambiente que me assustava.
Depois consegui emprego no Distrito Industrial, trabalhando no controle de qualidade. Mas não gostei daquela experiência. Eu enxergava aquilo como uma forma moderna de exploração do trabalhador. Também morei em vários bairros de Manaus, como São José e Jorge Teixeira, e em outros lugares, muitas vezes a favor. Mas eu nunca abandonei o objetivo de estudar.
ON JORNAL: Em algum momento você também entrou no empreendedorismo, certo?
ISMAEL MUNDURUKU: Sempre fui empreendedor. Eu fui o “rei do pastel”. Aprendi a fazer pastel, comprei uma máquina, materiais e montei uma pequena pastelaria no bairro São José, perto do shopping. Meu irmão Isael vendia Bíblia ao meu lado. Eu também vendia Bíblia.
Depois comecei a fabricar vassouras de piaçava. Percebi que era melhor terceirizar a fabricação e ficar responsável pelas vendas. Passei a comprar de outros estados e, quando percebi, já tinha uma distribuidora de vassouras. Passei a vender rodos, escovas, espanadores e toda uma linha de produtos para limpeza.
A pastelaria dava até mais dinheiro, porque eu trabalhava principalmente no fim da tarde e à noite. Isso me permitiu ter tempo para outras atividades e continuar estudando. Também fiz curso de piloto de avião. Não era apenas por profissão, mas por uma realização pessoal.
ON JORNAL: E a liderança indígena começou quando? Ainda muito cedo?
ISMAEL MUNDURUKU: Desde os 17 anos eu já lutava pela demarcação e ampliação da Terra Indígena Kwatá-Laranjal. Eu já era uma liderança na minha comunidade. As pessoas me viam dessa forma porque eu não aceitava o “não” para aquilo que considerava um direito.
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Essa indignação foi me levando mais longe. Ajudei a criar organizações indígenas, a organizar outros povos e participei da criação da nossa organização do rio Mapiá. Também ajudei a organizar o povo Mura e outras instituições. Em Manaus, participamos da criação da UPIM, que foi pioneira na representação dos indígenas urbanos.
ON JORNAL: E como essa trajetória chegou ao Parque das Tribos?
ISMAEL MUNDURUKU: A UPIM foi uma das bases para a criação do Parque das Tribos. Dentro dela estavam lideranças que participaram da fundação da comunidade. Antes disso, também ajudei a criar e organizar outras comunidades. Trabalhei com agricultores, movimentos de sem-teto, movimentos de sem-terra e agricultura familiar.
Ajudei a criar assentamentos em ramais da Zona Franca de Manaus e participei da organização de comunidades como a Água Branca. Em uma delas, ajudei a assentar mais de mil famílias. Também criei cooperativas e associações, mas nunca quis ser o dono dessas organizações. Sempre quis que as pessoas tivessem a oportunidade de comandar aquilo que construíram.
ON JORNAL: Você fala muito sobre democracia e participação. Isso é uma característica da sua liderança?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu sempre gostei de transparência e democracia. No Parque das Tribos, o cacique é eleito. Eu fui eleito. A associação também escolhe sua diretoria por meio de eleição. Criei uma cooperativa formada por mulheres e são elas que escolhem quem vai comandar.
Eu não gosto da unanimidade. Prefiro que exista divergência. Porque é na divergência que a gente aprende, cresce e consegue melhorar. Se todo mundo concorda com tudo, você não consegue enxergar os problemas.
ON JORNAL: Essa experiência de liderança comunitária também acabou levando você para a política?
ISMAEL MUNDURUKU: Com certeza. Eu vi muita injustiça em Borba. Via problemas na Prefeitura, na Câmara Municipal e percebia que faltava fiscalização. Havia situações em que praticamente não existia oposição. E mesmo quando existia, muitas vezes era um voto vencido.
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Eu comecei a cobrar os vereadores e o prefeito. Diziam que eu era chato, que aquele cacique era muito combativo. Mas eu cobrava porque havia crianças indígenas que precisavam de escola, professores, transporte e estrutura. Eram direitos básicos. Quando esses direitos não chegavam, eu ia cobrar.
ON JORNAL: Você também acompanhou de perto a transformação de Manaus. O que mais marcou sua memória?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu vi Manaus crescer. Quando era criança, fui para lugares que hoje são bairros completamente diferentes. Eu pescava e tomava banho onde hoje existem grandes avenidas e conjuntos habitacionais. Vi a floresta, os igarapés e aquelas áreas serem ocupadas.
Vi bairros como Jorge Teixeira, Tancredo Neves e Nova Floresta surgirem. O Mutirão era um conjunto de pequenas casas de madeira. Meu pai também era muito combativo politicamente. Grande parte do meu pensamento crítico veio dele. Ele foi candidato a vereador em Manaus em 1992 e teve uma votação muito expressiva para aquela época.
ON JORNAL: Quando você decidiu transformar essa militância em candidatura?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu passei 27 anos da minha vida militando em movimentos indígenas e sociais. Eu cresci vendo políticos indo ao interior pedir votos, fazendo promessas e depois muitas delas não chegando às comunidades. Eu comecei a pensar: por que um de nós não pode estar lá?
Minha primeira tentativa foi ainda jovem, quando registrei uma candidatura a prefeito de Borba mas depois desisti por problemas com meu vice. Tive problemas com a composição da chapa e acabei renunciando. Em 2022, fui convidado pelo PDT para disputar uma vaga de deputado federal. Não foi uma experiência partidária boa para mim e tive problemas relacionados à prestação de contas que precisei resolver posteriormente. Eu prestei todas as minhas contas mas o partido perdeu o prazo. Depois eu por conta própria, correndo atrás, consegui resolver isso.
ON JORNAL: Depois disso, houve outra tentativa, desta vez para vereador?
ISMAEL MUNDURUKU: Em 2024, eu pretendia ser candidato a vereador. Eu acreditava que estava filiado ao partido, mas descobri que minha filiação havia sido retirada. Não consegui disputar e fiquei muito aborrecido. Aquilo foi uma virada para mim.
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Comecei a pensar que precisava fazer política de outra maneira, construir alianças e organizar uma base. Passei a trabalhar de forma mais profissional e mais dedicada à política. Hoje tenho um grupo de pessoas que me acompanham. Minha intenção sempre foi demonstrar que a comunidade tem força política e que essa força precisa ser utilizada para conquistar melhorias.
ON JORNAL: E o que você aponta como algumas das conquistas obtidas no Parque das Tribos?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu sempre exigi coisas grandes. Não queria me contentar apenas com o básico. Doei para a Prefeitura um terreno documentado, avaliado em cerca de R$ 1 milhão, para que fosse construída uma unidade de saúde. No começo, queriam fazer algo menor. Eu disse que não aceitava porque o terreno era valioso e queria uma estrutura proporcional.
Depois conseguimos a unidade de saúde. Também avançamos em escola, creche, restaurante popular, pavimentação e outros serviços. O Parque das Tribos passou a ser mais visto pelo poder público. Eu também procurei fazer com que as comunidades do entorno fossem beneficiadas.
ON JORNAL: Você também ocupou cargos públicos. Como essas experiências influenciaram sua trajetória?
ISMAEL MUNDURUKU: Fui chefe do fundiário da Prefeitura, trabalhando com regularização da cidade. Também trabalhei no Governo do Estado como extensionista rural, durante a gestão do Eduardo Braga. Pude participar de projetos de agricultura em diferentes municípios.
Mas nunca deixei o movimento indígena. Sempre continuei atuando na causa indígena, na agricultura, com mulheres e outros movimentos sociais. Essas experiências me deram uma visão de dentro e de fora do poder público.
ON JORNAL: E por que o Senado?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu acredito que existe uma necessidade de ampliar a representação popular e indígena naquele espaço. Quero um Senado mais acessível. Quero que as pessoas possam falar com o senador, procurar o senador e apresentar suas demandas.
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Se eu for eleito, quero ter um espaço para atender as pessoas, de preferência na periferia e sem muros. Quero levar a cultura indígena para dentro do Senado e discutir os assuntos que atingem os povos indígenas com profundidade.
ON JORNAL: Como você imagina os próximos anos da sua trajetória política?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu quero viver esse mandato no meio das pessoas. Quero percorrer o Amazonas, ajudar as comunidades e utilizar os recursos disponíveis para beneficiar a população. Quero ser muito combativo em defesa dos povos indígenas e das pessoas mais pobres.
E, depois desse período, se eu tiver a oportunidade, pretendo continuar na política. Posso disputar a Prefeitura de Manaus ou o Governo do Amazonas. Mas primeiro quero construir um trabalho no Senado e mostrar que um indígena pode ocupar esse espaço sem abandonar suas raízes.
ON JORNAL: E quem é Ismael Munduruku depois de tudo isso?
ISMAEL MUNDURUKU: Eu continuo sendo o menino do rio Mapiá. Continuo sendo o filho de Manuel Barroso e Dona Iracema, o neto de Manel Espanha. Sou agricultor, pescador, agrimensor, topógrafo, pai, cacique e militante.
Tudo que eu fiz veio da necessidade de transformar a realidade. Eu nunca quis mandar nas pessoas. Sempre quis que elas tivessem oportunidade de decidir e construir o próprio caminho. É isso que eu continuo tentando fazer.
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