quinta, 23 de abril de 2026
25/12/2021   09:00h - Entrevistas

Inspiração de Natal: ON Jornal entrevista Dra. Ilze, a primeira médica da etnia Baniwa formada pela UEA

Era uma vez uma menina da etnia Baniwa. Ela nasceu na cidade de São Gabriel da Cachoeira (a 852 quilômetros de Manaus), um lugar cercado por natureza e habitado, em sua maioria, por indígenas de várias etnias. Ilze foi criada com mais seis irmãos e cresceu observando as dificuldades enfrentadas pelo seu povo.

 

Mesmo com tantos desafios na vida, ela concluiu o Ensino Médio, tentou o vestibular em diversas tentativas e conseguiu se tornar médica, ajudando, agora, a comunidade onde vivia.

 

Hoje, Ilzinei da Silva, além de ser a primeira médica da etnia Baniwa formada pela UEA, é oficial médica temporária do Exército brasileiro e atua na região em que nasceu. Sua história tem inspirado diversas pessoas e surpreendido a muitos por tamanha perseverança.

 

Ao ON jornal, a Dra. Ilze, que está com quase nove meses de gravidez, à espera do segundo filho, Davi, fala sobre sua trajetória e o sentimento de ser referência para jovens indígenas no Amazonas. Confira!

 

 

ON Jornal- Quais as principais dificuldades que sua comunidade enfrenta?

 

Ilze - Posso falar pela minha comunidade baniwa, uma das principais dificuldades é o acesso à educação de qualidade, em muitas comunidades por exemplo, as escolas são precárias, sem energia elétrica por 24H. E isso acaba afetando todo o aprendizado e futuramente uma boa preparação para vestibular, concursos, etc.

 

 

ON Jornal- Você sempre sonhou em ser médica? Achou que isso seria possível? 

 

Ilze - Sim, desde a minha adolescência sonhava em ser médica, e isso se deu porque tinha contato com médicos militares, principalmente, que frequentavam a mesma igreja evangélica que eu. Então vendo todo o processo do atendimento ao doente, curando, aliviando, tive a certeza que queria essa profissão. No início achei que de acordo com a minha realidade, que era muito humilde, não poderia ser possível, mas vi que essa realização estava na dedicação aos meus estudos, se me dedicasse bastante no fundo sabia que teria um bom resultado.

 

 

ON Jornal- Qual o sentimento você teve ao descobrir que cursaria medicina? 

 

Ilze - Tentei por 03 anos passar no vestibular, passei na 4 tentativa, meu amigo que ligou na época para falar que meu nome estava entre os aprovados, quase desmaiei quando recebi a notícia, o meu sentimento naquele momento era de muita felicidade, não dormi nesse dia de tão feliz. Cursar medicina agora seria real, a realização do meu sonho!

 

 

ON Jornal- Como você vê a responsabilidade de ser a primeira medica Baniwa formada pela UEA? 

 

Ilze - Vejo como uma forma de demonstrar que nós os baniwas ou outros indígenas, somos capazes também de sermos médicos, advogados, engenheiros etc, só bastar lutar pelos nossos sonhos e perseverar.

 

 

ON Jornal- De que forma você e sua profissão tem beneficiado a sua comunidade? 

 

Ilze - Vejo que atendendo meus conterrâneos de forma atenciosa, ouvindo suas queixas e procurando o melhor tratamento, tento dar o melhor de mim para amenizar o sofrimento, sempre pensando no bem-estar dos meus pacientes e isso tem surtido um bom resultado.

 

 

ON Jornal- Além de já ser uma grande médica, há algum sonho que você deseja ver realizado, tanto na vida pessoal quanto na profissional?

 

Ilze - Posso dizer que profissionalmente tenho o sonho de fazer residência médica em ginecologia e obstetrícia para cuidar da saúde da mulher. E no pessoal é ver meus filhos terem uma educação de qualidade e meu marido passar no concurso público que ele deseja.

 

 

ON Jornal- Daqui a alguns anos, acredita que sua conquista irá inspirar outros indígenas da sua e outras comunidade?

 

Ilze - Na verdade já inspira, eu e meu marido trabalhamos com grupo de jovens na igreja que frequentamos em São Gabriel da Cachoeira e sempre incentivamos os mesmo a se dedicarem nos seus estudos para realizar seus sonhos e objetivos. E tenho recebido mensagens de jovens que falam que se inspiraram na minha história e que irão lutar pelos seus sonhos. E ainda, outras meninas que se impressionam por eu ser militar do exército brasileiro, elas me veem como algo que parecia impossível e eu estou ali, sendo oficial médica! Então elas veem que é possível sim um indígena ser alguém na vida.

 

 

ON Jornal- Qual mensagem você deixa pra outros estudantes indígenas que, iguais a você, tem grandes sonhos profissionais?

 

Ilze - Sejam resilientes, as coisas não são fáceis, mas se lutar com todas as forças, vencerá!

 

 

ON Jornal- Tivemos um ano difícil devido à pandemia. No entanto, seu trabalho está sendo muito reconhecido e está prestes a dar à luz a uma criança. Com isso, o que esse Natal representará para você diferente dos outros?

 

Ilze - A chegada do meu segundo filho marca um novo ciclo, pois terei mais responsabilidades, terei que saber conciliar trabalho e filhos. Mas diante de um ano tão difícil que passou, a chegada do meu filho é a melhor benção que o novo ano vai trazer.

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