ON Jornal: O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) completa 72 anos de implantação e se torna uma referência mundial em pesquisas sobre a região. O que o INPA representa hoje para a Amazônia e para o Brasil?
O INPA representa a capacidade do Brasil de produzir, na própria Amazônia, ciência estratégica para conhecer, proteger e desenvolver uma região decisiva para o país e para o planeta.
Ao longo desses 72 anos, sucessivas gerações de pesquisadores ajudaram a transformar profundamente esse quadro. Hoje, o INPA é uma das principais referências mundiais em biodiversidade tropical, ecologia, florestas, recursos aquáticos, clima, ciclos biogeoquímicos e nas relações entre sociedade, ambiente e saúde na Amazônia.
Seu legado vai além da produção científica: o Instituto formou gerações de especialistas capazes de manter a Amazônia como objeto de conhecimento, decisão e soberania nacional.
E essa capacidade continua ativa. Em 2025, tínhamos 320 estudantes de iniciação científica e 515 de pós-graduação, sendo 287 mestrandos e 228 doutorandos. A área finalística manteve 119 projetos financiados externamente, produziu 369 publicações científicas e técnicas, desenvolveu ou aprimorou 28 processos e técnicas e captou mais de R$ 68,5 milhões para pesquisa e desenvolvimento.
Em síntese, o INPA é hoje a memória científica da Amazônia, uma capacidade instalada para interpretar suas mudanças e uma plataforma nacional para construir soluções para o futuro. Para o Brasil, manter essa capacidade científica instalada no coração da Amazônia é também uma questão de soberania.
ON Jornal: Qual foi a contribuição científica mais transformadora do INPA para a compreensão do bioma amazônico e para a qualidade de vida das populações locais?
A contribuição mais transformadora do INPA foi consolidar uma capacidade permanente de explicar como a Amazônia funciona, em sua biodiversidade, seus rios, suas florestas, seu clima e suas sociedades. Ao longo de sete décadas, ajudamos a demonstrar que a Amazônia não é uma floresta homogênea.
É um sistema extraordinariamente complexo, formado por diferentes tipos de florestas, rios, igarapés, áreas inundáveis, campinas, campinaranas e outros ambientes, com enorme diversidade biológica e profundas interações entre a água, a floresta, a atmosfera, os solos e as sociedades humanas.
O INPA teve papel decisivo na descrição da biodiversidade, na botânica, na entomologia, na limnologia amazônica, na ecologia e fisiologia dos peixes, na ecologia florestal, no manejo dos recursos naturais e, progressivamente, na compreensão das relações entre floresta, atmosfera, carbono, água e clima.
A Reserva Florestal Adolpho Ducke sintetiza esse legado: 10 mil hectares de floresta pesquisados há mais de seis décadas, com séries ecológicas, coleções de dados e referências como a Flora da Reserva Ducke, que continuam orientando novas gerações de pesquisadores.
ON Jornal: Quais são os principais mecanismos adotados pelo Instituto para atrair e reter novos talentos científicos diante dos desafios do setor?
Atrair e reter talentos na Amazônia exige transformar formação científica em carreira, infraestrutura qualificada e perspectiva de futuro na própria região. O INPA possui uma vantagem extraordinária: construímos, ao longo de mais de cinco décadas, uma verdadeira cadeia de formação científica, que começa na iniciação científica, passa pelo mestrado e doutorado, chega ao pós-doutorado e aos programas de capacitação institucional.
Em 2025, tínhamos 320 estudantes de iniciação científica, 515 pós-graduandos e 265 docentes credenciados. A recomposição recente do quadro permanente fortalece essa estratégia ao renovar equipes, ampliar a orientação acadêmica, abrir novas linhas de pesquisa e aumentar a capacidade de execução de projetos.
Mas retenção não depende apenas do INPA. Precisamos de concursos regulares, bolsas competitivas, financiamento contínuo, infraestrutura científica moderna e perspectivas de carreira. O grande objetivo deve ser fazer com que um jovem amazônida não precise escolher entre permanecer na Amazônia e fazer ciência de excelência.
ON Jornal: De que maneira os dados e as pesquisas gerados pelo INPA orientam o desenvolvimento de políticas públicas para a mitigação e a adaptação a eventos climáticos extremos na região?
A contribuição central do INPA para as políticas climáticas é reduzir incertezas e antecipar riscos: identificar o que muda, onde muda, com que velocidade e quem é mais vulnerável. Projetos e infraestruturas, como LBA, ATTO e AmazonFACE, permitem estudar as relações entre a floresta, a atmosfera, a água, o carbono e o clima. No campo da biodiversidade, PPBio e PELD permitem acompanhar, de forma sistemática, organismos, comunidades e ecossistemas. Essa dimensão temporal é fundamental. Em relação às mudanças climáticas, não podemos voltar ao passado para coletar o dado que deixamos de medir.
Os resultados recentes demonstram sua importância. Nossos pesquisadores estudaram os efeitos de secas extremas e de ondas de calor sobre a fauna, o aquecimento extremo das águas amazônicas, a vulnerabilidade das árvores ao estresse climático e as alterações no balanço de carbono.
Em Manaus, pesquisas mostraram que a substituição da floresta por superfícies urbanizadas aumenta o fluxo de calor e favorece a formação de ilhas de calor, fornecendo evidências importantes para políticas de arborização, planejamento urbano e adaptação climática. Estudos de modelagem territorial também avaliaram os riscos de intensificação do desmatamento associados à expansão rodoviária na região.
ON Jornal: Como a incorporação de novas tecnologias, como inteligência artificial, genômica e dados de satélite, tem transformado a pesquisa de campo e a coleta de dados na Amazônia?
Novas tecnologias ampliam a capacidade de observar a Amazônia em escala continental, integrando campo, satélites, sensores, genômica, modelagem e inteligência artificial. Isso não elimina a importância do pesquisador de campo. Ao contrário: torna cada observação de campo muito mais poderosa.
Temos um exemplo importante no Acre. Pesquisadores vinculados ao INPA desenvolveram e validaram um protocolo que utiliza uma aeronave remotamente pilotada, associada à inteligência artificial, para estimar antecipadamente a safra da castanha-do-brasil. A tecnologia surgiu de um projeto de iniciação científica e tem potencial de aplicação direta junto aos extrativistas, ajudando no planejamento da produção e na comercialização.
Na área de biodiversidade, a genômica permite identificar espécies, compreender a diversidade genética, caracterizar microrganismos e realizar vigilância molecular. Os satélites permitem acompanhar o desmatamento, a degradação, o fogo, a estrutura da vegetação e as mudanças no uso da terra em escalas de cobertura impossíveis de cobrir exclusivamente no campo. Mas existe uma questão fundamental: satélites e inteligência artificial precisam, de verdade, de campo.
ON Jornal: O INPA produz conhecimento sobre a biodiversidade, os ecossistemas e o funcionamento da Amazônia. Como fazer com que esse conhecimento saia dos laboratórios e se transforme cada vez mais em soluções capazes de melhorar a vida das comunidades da região?
O grande desafio é transformar conhecimento científico em soluções territoriais com impacto real na renda, na segurança alimentar, na conservação e na qualidade de vida. Durante muito tempo predominou na ciência uma lógica relativamente linear: pesquisamos, desenvolvemos uma tecnologia e depois procuramos alguém para transferi-la. Precisamos avançar cada vez mais rumo a outro modelo: a coprodução de soluções.
Em 2025, por exemplo, realizamos nove missões técnicas em comunidades e municípios amazônicos para diagnóstico territorial e prospecção de demandas tecnológicas. É uma mudança importante de lógica: não apenas levar o que já produzimos, mas também escutar a demanda e construir respostas.
Também estamos fortalecendo o ambiente de inovação. A incubadora do INPA entrou em uma nova fase com cinco empresas de base tecnológica voltadas à sociobioeconomia amazônica.
Esse avanço ocorre por meio da Coordenação de Gestão da Inovação e Empreendedorismo — COGIE, que atua como Núcleo de Inovação Tecnológica do Instituto. A COGIE estrutura a política de inovação, apoia a proteção da propriedade intelectual, organiza o licenciamento de tecnologias, fomenta a transferência de conhecimento e aproxima o INPA do setor produtivo.
ON Jornal: Qual é o papel do INPA na diplomacia científica e na liderança de redes globais de cooperação para o estudo da maior floresta tropical do mundo?
A diplomacia científica do INPA parte de uma realidade objetiva: clima, água, biodiversidade e carbono ultrapassam fronteiras, e nenhum país ou instituição resolve sozinho os grandes desafios amazônicos. O INPA pratica essa diplomacia científica há muitas décadas. Projetos como LBA, ATTO, AmazonFACE e PDBFF tornaram-se grandes plataformas internacionais de pesquisa, reunindo instituições e pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Temos também uma cooperação estratégica com a França por meio do Centro Franco-Brasileiro da Biodiversidade Amazônica.
Mas considero particularmente importante uma nova dimensão dessa diplomacia: a cooperação científica entre os próprios países amazônicos. O INPA integra a Rede Bioamazônia — Rede de Institutos de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade da Amazônia e a direção do INPA exerce a Vice-Presidência da Rede. Essa articulação é estratégica porque parte de uma ideia simples: a Amazônia funciona como um sistema interdependente, e muitos dos seus problemas não podem ser compreendidos ou enfrentados por uma única instituição ou por um único país.
E há um princípio que considero fundamental: a cooperação científica precisa significar uma parceria verdadeira e simétrica. As instituições amazônicas devem participar da formulação das perguntas, da governança dos projetos, da formação dos pesquisadores, da produção e da gestão dos dados, das publicações e dos benefícios decorrentes da pesquisa. A meta é manter a Amazônia aberta à melhor ciência mundial, mas com protagonismo das instituições amazônicas na definição das perguntas, na governança dos dados, na formação de pessoas e na repartição dos benefícios da pesquisa.
ON Jornal: Olhando para os próximos anos, qual é a Amazônia que o INPA quer ajudar a construir e quais são as prioridades que o senhor considera fundamentais para garantir que a instituição continue produzindo ciência estratégica para a região e para o mundo?
O INPA quer ajudar a construir uma Amazônia que una conservação, bem-estar social e resposta à crise climática, com ciência produzida na própria região e voltada à tomada de decisão pública. Para isso, nossa primeira prioridade precisa continuar sendo a excelência científica. Não haverá desenvolvimento sustentável da Amazônia baseado apenas em boas intenções. Precisamos de ciência.
Isso envolve garantir recursos permanentes para a conservação de acervos, a digitalização e a manutenção de programas de monitoramento de longo prazo (como PPBio, PELD e AmazonFACE), visando compreender os limites de resiliência da Amazônia diante de eventos extremos. Paralelamente, busca-se impulsionar uma sociobioeconomia baseada na floresta em pé, inovação e repartição justa de benefícios, além de ampliar a aproximação com a sociedade, povos tradicionais, empresas e governos.
Outro pilar essencial é a interiorização da ciência de excelência, integrando os núcleos do instituto no Acre, Pará, Rondônia e Roraima com universidades e organizações locais. Sobretudo, a prioridade máxima é a formação da próxima geração de jovens cientistas amazônidas, garantindo condições para que desenvolvam suas carreiras na própria região. Ao completar 72 anos, o INPA reafirma a missão de transformar o conhecimento científico acumulado em capacidade de decisão soberana sobre o futuro da floresta, do país e do planeta.
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