O cenário para as Eleições de 2026 desenha-se como um dos mais complexos e dinâmicos da história recente do país. À medida que as articulações partidárias ganham velocidade, o eleitor se vê diante de um bombardeio de informações, novas tecnologias de campanha e debates profundos sobre o futuro institucional do Brasil.
Para nos ajudar a decifrar esses rumos, o ON Jornal entrevistou com exclusividade, o cientista político, Helso Ribeiro, conhecido no ambiente acadêmico, "Professor Helso", ele carrega uma grande bagagem intelectual. Graduado em Direito e Ciências Sociais pela UFRJ, e em Filosofia pela UFAM, ele consolidou sua trajetória com um doutorado em Ciência Política pela prestigiada Université de Montpellier, na França. Atualmente, preside a Comissão de Relações Internacionais da OAB, é membro da Academia de Ciências e Letras Jurídicas do Amazonas e traduz diariamente os bastidores do poder como comentarista da CBN Amazônia. Confira a entrevista.
ON Jornal: Qual a visão que o senhor tem sobre o cenário político da atualidade?
Professor Helso: Eu entendo que a política sempre gerou ódios, paixões, às vezes indiferenças também. Então, o cenário político de hoje é envolto nisso. Agora, eu vejo que desde 2017, basicamente, há uma espécie de maniqueísmo muito forte, principalmente envolvendo adeptos do presidente Lula e adeptos do ex-presidente Bolsonaro.
E esse maniqueísmo, ainda que com a ausência do ex-presidente Bolsonaro, eu vejo que ele continua forte, as pesquisas mostram isso. E muitas vezes as pessoas, por paixões e ódios, elas acabam não percebendo algumas realidades que são até fáceis de serem enxergadas, mas esses sentimentos extremos impedem que elas vejam isso. E isso aí acaba fazendo com que o cenário político atual esteja bem conflituoso.
ON Jornal: O que decide o voto no Amazonas hoje: a polarização ideológica nacional ou as demandas e lideranças locais?
Professor Helso: Eu vejo o seguinte, essa polarização que eu citei anteriormente, essa visão maniqueísta, quem está do lado é um santo, quem está do outro lado é o capeta, ela toca o Amazonas, evidentemente. E se você for observar bem, essa polarização retroalimenta adeptos das duas correntes, inviabilizando, por vezes, uma terceira via. É claro que em cada região tem as suas particularidades, e o Amazonas, até por uma condição geográfica particular, tem suas idiossincrasias que não existe muito em outras regiões, que a comunicação é mais fácil entre municípios.
E aí eu penso que, um exemplo, se você pegar as duas últimas eleições, o presidente Lula teve uma votação maciça, imensa, no interior do Estado. E na última eleição ele ganhou também, ele ganhou as eleições. Nas duas últimas, no interior do Estado, foi avalanche de votos. Então, cada lugar tem a sua particularidade, e eu penso que aqui vai contar ainda essa polarização.
ON Jornal: Como a disputa pelo Governo e pelo Senado deve rearranjar as alianças entre os grupos de políticos da região?
Professor Helso: E eu acredito que nós ainda temos. Semana que vem começam as convenções, no dia 20, e nós vamos ter ainda três semanas, até o dia 5, para o final das convenções. Eu acredito que, regionalmente, as pessoas, às vezes, fazem alianças que, no espectro nacional, seriam impensáveis. Então, se você observar bem, eu vou pegar a eleição passada, teve municípios que PT e PL ficaram juntos. Isso eu digo no Brasil, não estou falando de um lugar detalhado. Então, eu acredito que a gente tem que aguardar um pouco as convenções.
Tem muita conversa ainda de bastidor rolando, visando possíveis coligações. E é interessante nós termos a convicção de que, para governador e para senador, ainda existe a possibilidade de coligações, diferente de deputado estadual, federal, que não pode mais.
Então, eu acredito que, até o dia das convenções, que eu saiba, vai ter... Eu acho que o Avante faz a convenção dia 25, e aí, só lá para agosto, que serão as convenções de PSDB, MDB, PL. Então, eu acho que as lideranças desses partidos tentam dialogar até o final. Lembrando que, além de coligar para o governo, podem coligar também no caso da escolha dos suplentes de senadores. E são dois senadores, ainda tem isso. Dois senadores com dois suplentes cada. Então, isso gera uma possibilidade de coligação forte, e a gente vai ter que aguardar para ver como é que ficou arrumado esse xadrez aí.
ON Jornal: Como temas como a BR-319 e a Zona Franca de Manaus serão debatidos de forma prática nas campanhas, diante das recentes crises climáticas?
Professor Helso: Eu vejo de forma clara, e eu lastimo muito isso, que a questão climática não é uma pauta de grande envergadura para o eleitorado do Amazonas. Pelo menos para a grande maioria. E eu lastimo muito isso.
Mas os pontos que você toca, BR-319 e Zona Franca, esses são de fundamental importância. E aí você vê, e vai continuar vendo, eu acho, muita falácia, muita narrativa. Vou dar um exemplo: a BR-319 está carente de asfalto há muitos anos. Eu estava, em 2019, na Fian, e a Fian recebeu o ex-vice-presidente, o general Mourão.
Ele falou assim, isso tinha 500 pessoas no auditório. E aí ele afirmou, a BR319 será asfaltada, se não asfaltada, eu como a minha boina. E não foi asfaltada. E aí, na época não tinha Marina Silva, às vezes as pessoas querem um algode. Então, por exemplo, para o ano que vem, não tem verba para isso. Não foi empenhado nada, não está no orçamento. Então, acho que vai continuar sendo objeto de narrativas. Cada um querendo ser o dono da defesa da BR319. Tem até o ex-ministro Alfredo Nascimento, que foi ministro do transporte.
E nada, não houve nada, não houve grandes alterações. Em relação à Zona Franca, eu acredito que se você perguntar de 1.001, de 101, seja lá o que for, vamos botar 101 economistas, eles vão dizer o que é fundamental para o desenvolvimento do Amazonas. Fundamental, não dá para minimizar. Eu diria de 101, acredito que 98 vão dizer não tem como. E aí é mais também um assunto para ficar nas narrativas de discurso. Claro, cada um querendo mostrar que fez muito, que vai fazer muito. Seria isso.
ON Jornal: Existe espaço real para o surgimento de novas lideranças no estado ou o cenário continuará dominado pelos mesmos grupos?
Eu entendo como aquela música do Belchior, brilhantemente interpretada pela Elis Regina, que fala que o novo sempre vem. Então, sempre vai ter o surgimento de uma nova liderança. É claro que essa nova liderança, quando surge, ela não surge na perspectiva de uma hegemonia de campanha majoritária.
Muitas vezes vem com viés de vereadores, de deputados e tal. E eu acredito que é normal, isso faz parte da nossa história. Eu não estou vendo nomes, mas às vezes a gente é surpreendido nas eleições.
ON Jornal: De que forma o isolamento geográfico e as dificuldades de conexão no interior facilitam a propagação de fake news por aplicativos de mensagens?
Professor Helso: E essa é uma triste realidade, que o isolamento geográfico, ele talvez acentue um pouco isso, mas isso também está nas sedes dos municípios, na capital também. Então a fake news se espalha e é difícil. Muitas vezes as pessoas têm nas suas redes sociais, pessoas que têm uma simpatia direcionada a um candidato e aí as notícias serão sempre voltadas para aquele candidato. Então nem sempre os meios de comunicação vão conseguir mostrar o outro lado.
Então esse é um dos aspectos das redes sociais. Você tem a sua rede e aí o que for antagônico à sua rede quase você não vai acessar. Isso aí é um dos desafios da democracia digital, de tentar dar clareza aos fatos veiculados ou até confrontar assuntos inverídicos, mentirosos com a realidade. Mas isso aí é muito difícil.
ON Jornal: Qual é a melhor estratégia para conter o uso de deepfakes e montagens de voz nas campanhas?
Professor Helso: Estratégia é complicado, porque na verdade o avanço tecnológico sai na frente de regras. Tanto das regras eleitorais, das de fiscalização do Estado. Então quando alguém usa uma deep fake, você pega parte de verdade, você mescla com parte de mentira e aí isso gera uma credibilidade. Isso é complicado.
Então eu acredito que partidos políticos, federações, vão ter que ter uma vigilância diminuta a cada minuto para tentar barrar isso. É um trabalho hercúleo para o Ministério Público Eleitoral, para a Justiça Eleitoral. Daí a importância de você tentar colocar regras nas redes sociais, que muitos são contra.
ON Jornal: ?Qual será o maior desafio da Justiça Eleitoral no Amazonas neste pleito: combater a desinformação ou fiscalizar o abuso de poder econômico?
Professor Helso: É algo difícil. Seu questionamento finalizou os questionamentos anteriores com algo muito complicado. Eu diria o seguinte, são dois desafios hercúleos. Justiça Eleitoral e Ministério Público Eleitoral. Dois desafios hercúleos, combater fake News que é a desinformação e fiscalizar o abuso de poder econômico.
Eu penso que a desinformação, você tem e dá para correr atrás de combater. Não estou dizendo que é fácil, dificílimo. Agora, o uso de Caixa 2, por exemplo. Justiça Eleitoral do Amazonas combatendo a desinformação.
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