quinta, 23 de abril de 2026
18/04/2026   08:00h - Entrevistas

FRANCISCO PRACIANO fala ao On Jornal sobre sua trajetória política, das conquistas em seus mandatos e avalia a dinâmica da política atual

Francisco Ednaldo Praciano não é apenas só um nome nos registros da Câmara Federal ou da Câmara Municipal de Manaus ele é um arquivo vivo das transformações políticas no Amazonas. Economista e analista de sistemas, consolidou sua carreira pública no Partido dos Trabalhadores (PT), foi deputado federal em 2006 e 2010, vereador pelo mesmo partido com quatro mandatos consecutivos em Manaus e se tornou referência em fiscalização orçamentária e ética administrativa.

Em um momento de  reconfiguração na política da capital amazonense, o ON Jornal convidou Praciano para uma conversa sobre as conquistas dos seus mandatos, visão política, opinião e o futuro de Manaus sob a ótica de quem conhece os bastidores das decisões que movem o Estado. Confira.

ON Jornal: O que exatamente o motivou a deixar o setor corporativo para entrar na política? Foi um chamado ideológico ou a inquietação com a forma como a máquina pública era gerida em Manaus naquela época?

Francisco Praciano: Motivado por minha formação. Pais simples, de bom comportamento e exemplares. Meus heróis, até hoje. Me colocaram no Seminário por 5 anos. Fui de uma Congregação religiosa, fundada por um padre operário francês. A Congregação se chama Sacré Coeur de Jesus. Aí aprendi a não matar (nem formiga), não roubar (nunca fiz), não cobiçar (sempre me arrependo). Nesta Congregação era proibido ter propriedades (gênese do meu socialismo). Ter dinheiro nunca esteve entre as minhas utopias.

Ainda faz parte, e muito, da minha formação a Philips da Amazônia, da qual fui um dos gerentes por 12 anos. Era um executivo, membro do staff da empresa. Lá me especializei em gerenciar, planejar e fiscalizar. Em síntese, esses fatos construíram meu perfil de político. Fiz um parlamento como um sacerdócio. Acredite se quiser. Mas lembro que quando saí do Congresso tinha uma casa (a mesma), um carro já velho e um cachorro já velho e  cego. Adoeci logo que saí. Os amigos e eleitores fizeram cota para me salvar.

ON Jornal: Sua trajetória parlamentar começou na Câmara Municipal de Manaus, onde exerceu quatro mandatos. Quais foram as principais conquistas nesse período?



Francisco Praciano: Acho que fiz bem o meus mandatos na Câmara Municipal de Manaus (CMM). Legislei bastante, com resultados práticos na área de  Transporte Coletivo,  Educação e Estudante. Nosso querido país é corrupto. O político corrompe, o empresário corrompe, as Instituições corrompem e o eleitor frágil e sem formação colaboram na construção desse “câncer”. A minha principal luta foi essa.

Fiscalizava, e com muito barulho, para criar consciência crítica no eleitor. Fazia diariamente formação politica, dava aulas nas feiras, nas praças, nos terminais em cima de uma Kombi. A kombi era uma Tribuna, os espaços públicos, verdadeiras ágoras. Alguns resultados: Passagem gratuita acima de 60 anos, no resto do país 65, lei federal; criei a TV CÂMARA (coloquei a Câmara na casa do cidadão); criei a Comissão de Legislação Participativa, permitindo o cidadão legislar, entre muitas outras leis aprovadas.

ON Jornal: Em Brasília, o senhor foi 1º Vice-Presidente da Comissão Especial da PEC 506/10, que tratava da prorrogação da Zona Franca de Manaus. Diante das recentes reformas tributárias, como o senhor enxerga a sustentabilidade do nosso modelo econômico a longo prazo?

Francisco Praciano: O Modelo Zona Franca e frágil, vulnerável pois é um enclave, uma área diferenciada, de privilégios. E, como tal,  torna o resto do Brasil concorrente, diria, inimigo. Está aí a sua vulnerabilidade. Ainda não apareceu um governador estadista pra criar alternativa econômica para o Estado do Amazonas.

A ZFM em que ser um segmento da nossa economia e não o único segmento, a única alternativa. Só promessa e às vezes nem isso. Amazonino, Terceiro Ciclo; Braga, Zona Franca Verde; Omar, Amazônia Verde; Melo e Wilson, nem promessa. A ZFM tem que sobreviver enquanto não criarmos alternativas ou modelo  econômico, até lá que Deus nos ajude a escolher um governador estadista.

ON Jornal: O senhor sempre foi uma voz ativa contra a improbidade administrativa, tendo participado de comissões sobre o tema. Na sua visão, os mecanismos de controle atuais são suficientes para coibir a corrupção?



Francisco Praciano:
Estamos longe disso. O Estado brasileiro é desenhado pra facilitar a corrupção. Exemplo: Como esperar que os TCEs fiscalize o governador, se o próprio governador indica os seus fiscais? O Fiscalizado indica o seu fiscal. Há quer ter aperfeiçoamento dos  três poderes. Leis e penalidades mais radicais. Sou contra cortar a mão, mas sou a favor de cortar a volúpia, a ganância, o mandato.

ON Jornal: Ao olhar para a Manaus de hoje, quais são as maiores diferenças que o senhor percebe na dinâmica política da cidade em comparação àquela década de 90?

Francisco Praciano: Eu estou no Ceará, moro no Ceará numa vila de pescador. Acompanho a politica somente pela Internet, temo fazer avaliações. Prefiro reafirmar o que era a dinâmica politica da década. A começar pela Câmara. Eram 21 Vereadores, 17 tinham curso superior e, quando não,  quase todos tinham um bom nível. Só pra lembrar,  fui da época do João Pedro, Mário Frota, Vanessa, Jefferson Peres,  Serafim pai, Roberto  Braga, Roberto Alexandre,  Benayon, Leonel Feitosa,  Paivinha.

Era uma Câmara dinâmica. E a sociedade era participativa, era uma casa sempre cheia de estudantes, professores, servidores, trabalhadores e a pauta sempre tinha participação popular. O perfil de alguns vereadores provocaram essa integração. A ética, a transparência, a participação sempre estavam na pauta. Sindicatos, Ministério Público e Justiça sempre presente na politica.   Fizemos a primeira e acho que a única cassação por corrupção ocorrida em Manaus. Sinto falta disso. Tenho a sensação que a sociedade nem sabe o nome dos vereadores atuais. A sociedade era mais cidadã. A partir de 2018 o nível de cidadania foi decrescendo. A Aleam não tinha a dinâmica da CMM. Servia principalmente pra fazer homenagens e dar títulos. Inócua.

ON Jornal: Como economista, o senhor acredita que a falta de diversificação da nossa matriz econômica é uma falha técnica de planejamento ou uma escolha política das elites locais?

Francisco Praciano: Uma escolha das Raposas Velhas.  Programas de Governo sem a participação do Empresariado, da Academia, dos Sindicatos, dos intelectuais. Promessas de campanha, irresponsáveis e eleitoreiras que consumiam altos recursos do orçamento do Estado e do Município.

Exemplos: Importar uma Cidade Flutuante do Japão para Substituir a Zona Franca; Metrô de superfície; Integrar o Interior à Economia do Estado através dos Programas: Zona Franca Verde, Amazônia Verde, Corredor de Exportação, Estrada do Progresso. A Matriz econômica continua a Zona Franca que está deixando uma Metrópole bastante “afavelada”. Interior não tem uma fábrica de descamar jaraqui.

ON Jornal: Como um político de trajetória histórica no PT, qual a visão que o senhor tem do cenário político atual?




Francisco Praciano: O presidente Lula está fazendo milagre, recuperando o país, com bons indicadores macroeconômicos  e sociais, mesmo tendo como adversário um Congresso inimigo do povo e do país, mesmo com um povo que insiste em votar nos seus algozes. É um milagre cujo santo não é visível. O povo, por conta da extrema direita e da imprensa corporativa, não conhece  o santo do Milagre. Esconderam o Lula. Minha grande crítica é que com 5 mandatos não conseguimos fazer Formação Política. Demos o pão e não demos formação e consciência.

A Democracia é frágil, o golpe ainda nos ronda. Desde sempre disse, nas tribunas, nas feiras e praças, artigos e falas que neste Brasil o bom parlamentar tem a função clássica de legislar, fiscalizar e , a cartilha esqueceu, a função de fazer formação, de criar consciência crítica e cidadania. Se a mídia corporativa não divulga o Milagre nem o santo, precisamos dar uma “Kombi” pra cada militante e simpatizante, divulgando o governo e injetando cidadania. As utopias não podem morrer: Imagina uma “Kombi de tão potente som” para o Lula transformar Manaus  numa grande ágora, falando pra Manaus. Não existe melhor comunicador.

ON Jornal: Se o senhor estivesse formulando um plano de governo para a capital hoje, qual seria a sua prioridade "número um"?

Francisco Praciano: São tantas as carências e necessidades da minha querida Manaus que precisaríamos de páginas e páginas pra falar das prioridades. Vou escolher uma prioridade: Consta dos anais da Câmara Municipal vários discursos sobre a urgência de pensar Manaus do Futuro. Não estou falando de fazer promessas de obras para executar logo depois da campanha, como a construção do Metrô de superfície, promessa enganosa feita por quase todos os últimos candidatos à Prefeitura Manaus. Se elegeram e o Metrô só ficou nas animações exuberantes apresentadas nos programas de TV das campanhas.

O que eu proponho  é escolher alguns temas de futuro e reunir a sociedade, empresários, técnicos, Universidade, políticos... para discutir, desenhar, definir as obras mais estruturantes e prioritárias para a Futura Manaus. Iniciar as discussões, desenhar os projetos. Vou arriscar sugerir alguns temas: Criar um Plano Diretor para a Orla de Manaus, do Mauazinho ao Tarumã, para que qualquer obra atenda a diretrizes que interliguem terminais hidroviários por balsas panorâmicas em vias exclusivas, redesenhando o sistema de ônibus com linhas radiais e circulares que reduzam o tempo de viagem e retirem veículos do centro.

Outro projeto, abrir janelas para o Rio Negro com lazer e urbanização, transferir estaleiros para o outro lado do rio e implementar um sistema de esgoto que utilize o leito dos igarapés para adutoras conectadas a grandes estações de tratamento antes do deságue, integrando finalmente a cidade ao seu rio. São dois exemplos simplificados. A ideia e a prioridade é iniciar a discussão da Manaus do Futuro. Sem prejuízo do dia a dia.

ON Jornal: Na sua avaliação, o eleitor amazonense em 2026 buscará a segurança de lideranças tradicionais ou o estado está maduro para uma ruptura definitiva com os grupos que se alternam no poder há décadas?

Francisco Praciano: Não acredito em ruptura próxima. Só a rua, só o povo faz rupturas. O eleitor não esta estimulado a isso. A Escola do Gilberto gerou filhos e Netos. Acho que o povo ainda gosta deles ou ainda vota neles no sistema de trocas. Espero pelos menos que não surjam os bisnetos.

A esquerda não tem projetos para 2026. Fazer um ou dois deputados não é mudança e, muito menos, ruptura. Dificilmente faremos Federal por falta de Legenda. E as alianças brancas, aquelas de alcova, de bastidores eliminarão nosso candidato a Senado. Passei por isso.



ON Jornal: Pensando no futuro, o senhor tem alguma pretensão de retornar ao cenário político?

Francisco Praciano:  Até que há quatro anos tentei. O povo não me quis. Já havia me esquecido. Farei sempre politica, mas candidaturas nunca mais. Não tenho mais “estômago” para campanhas.

Saúde boa mas, perdi o estímulo. Tenho vaidade dos meus mandatos, muita saudade dos amigos do Amazonas, mas não tenho sequer saudade do Parlamento. Meu tempo passou. Obrigado Manaus.

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