domingo, 06 de setembro de 2026
27/08/2026   09:30h - Cinema

Entre a Ruína e a Esperança: Ponto Sem Retorno Testa os Limites da Humanidade sob o Olhar de Ridley Scott

Às vésperas de completar nove décadas de vida, o cineasta britânico Ridley Scott demonstra que sua inquietação criativa permanece intocada. Com estreia agendada para o próximo dia 28 de agosto, seu novo longa-metragem, Ponto Sem Retorno, lança o espectador em uma atmosfera pós-apocalíptica implacável. Na trama, um vírus avassalador dizima mais de metade da população mundial, mas o verdadeiro colapso reside na perda da racionalidade humana, traço distintivo que cede espaço ao egoísmo e aos instintos primais de sobrevivência.

 

A narrativa acompanha Hig, interpretado com sensibilidade por Jacob Elordi. Antes da tragédia, Hig era um mecânico comum, casado e na expectativa do primeiro filho. A pandemia não apenas destruiu a estrutura social, mas tirou-lhe a esposa e o bebê que sequer chegou a nascer. Embora o enredo flerte com premissas consagradas da cultura pop, ecoando obras como The Last of Us, The Walking Dead e Days Gone ,, o longa desvia da fórmula tradicional. Em vez de focar na busca obsessiva por uma cura, o roteiro debruça-se sobre a desintegração das conexões humanas e a solidão individual diante do caos.

 

O lançamento chega ao público sob sobressaltos e recepções divididas da crítica especializada. Caio Pimenta, do portal Cine Set, classificou a produção como "piegas", enquanto Victor Cierro, da coluna Tangerina (UOL), apontou uma condução "pouco inovadora". Cierro, contudo, destacou a força das atuações de Elordi e Margaret Qualley, que formam o núcleo afetivo da obra. Em análise concedida ao On Jornal, o jornalista e crítico Emerson Medina enfatizou o esmero técnico da produção, sublinhando a qualidade do roteiro e a fotografia inspirada.

Distante dos agregadores de notas e das métricas aceleradas como Rotten Tomatoes e IMDb, Ponto Sem Retorno revela-se um exercício cinematográfico que merece ser degustado. A direção de fotografia utiliza com maestria paisagens montanhosas e isoladas da Itália para traduzir o deserto emocional dos personagens. Os efeitos visuais, aplicados na recriação de metrópoles em ruínas, operam de forma orgânica e sutil, sem se sobrepor à jornada de reconstrução interna do protagonista. Destaca-se ainda a dinâmica entre Hig e seu cão, Bangley, um recurso narrativo que ilumina a necessidade visceral de afeto e lealdade no limiar da extinção.

 

Cobrar de Ridley Scott um clássico instantâneo a cada lançamento é ignorar a própria natureza da longevidade artística. O cineasta que marcou a história do cinema com Gladiador, Alien e Blade Runner entrega aqui uma obra madura, consciente de suas limitações, mas profundamente humana. Nem mesmo os maiores nomes da história mantiveram a infalibilidade ao longo de décadas de carreira , e exigir o extraordinário a todo instante diz mais sobre a ansiedade do espectador contemporâneo do que sobre o valor intrínseco da obra.

 

Entre as cinzas do mundo que foi, Ponto Sem Retorno subsiste como um convite à reflexão sobre o que nos resta quando tudo o mais nos é tirado.

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