A Mpox é uma doença infecciosa causada por um vírus pertencente à mesma família da varíola. Os sintomas iniciais costumam incluir febre, dor de cabeça, aumento dos gânglios linfáticos e o surgimento de lesões cutâneas. Atualmente, o cenário no estado do Amazonas é de alerta e monitoramento constante para evitar a propagação do vírus.
Para detalhar sobre dados atualizados, transmissão, prevenção, assim como as estratégias de combate à doença no Estado, o ON Jornal entrevistou a Dra. Tatyana Costa Amorim Ramos, enfermeira formada pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), possui uma vasta trajetória acadêmica, com especializações em Gestão da Clínica, Administração Hospitalar, Terapia Intensiva e um MBA em Gestão e Controle de Infecção. É doutora na área de Epidemiologia e, desde 2021 preside a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP). Confira a entrevista.
ON Jornal: Como a Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas tem monitorado esta doença e quais são os dados epidemiológicos mais recentes disponíveis?
Dra. Tatyana Amorim - No Amazonas, o monitoramento é realizado de forma contínua pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), por meio do Departamento de Vigilância Epidemiológica.
O trabalho envolve a notificação, investigação e classificação de casos suspeitos em todo o estado, em articulação com os municípios e com o apoio do diagnóstico laboratorial realizado pelo Laboratório Central de Saúde Pública do Amazonas (Lacen-AM). Em 2026, até o momento, as secretarias municipais de saúde notificaram nove casos suspeitos de Mpox no Amazonas.
Desses, cinco foram descartados após investigação epidemiológica e análise laboratorial, enquanto quatro permanecem em investigação. Até agora, não há casos confirmados no estado. A vigilância segue em alerta, com monitoramento contínuo e orientação aos serviços de saúde para identificação precoce e adoção das medidas de controle.
ON Jornal: Em comparação com o ano de 2025 como está a incidência de casos neste ano de 2026? Quais fatores a senhora acredita que contribuíram para esse quadro de agora?
Dra. Tatyana Amorim - Em 2026, o Amazonas apresenta redução nas notificações de Mpox em comparação ao mesmo período de 2025. Entre janeiro e fevereiro deste ano foram notificados nove casos suspeitos, sem confirmação da doença até o momento. No mesmo período de 2025 haviam sido notificados 32 casos, dos quais 16 foram confirmados.
Esse cenário pode estar relacionado ao fortalecimento da vigilância epidemiológica, com investigação rápida de casos suspeitos, além da ampliação das orientações aos serviços de saúde e à população sobre sinais, sintomas e formas de prevenção.
ON Jornal: A doença Mpox pode ser transmitida por diferentes formas de contato. Quais são os principais modos de transmissão que a Fundação considera mais relevantes e como orienta as ações de prevenção?
Dra. Tatyana Amorim - No cenário epidemiológico atual, a Mpox tem como principal forma de No cenário epidemiológico atual, a Mpox tem como principal forma de transmissão o contato íntimo e prolongado com pessoa infectada, especialmente quando há lesões ativas e secreções. A infecção ocorre principalmente pelo contato direto pele a pele ou com mucosas, ao tocar lesões, crostas ou fluidos corporais.
Também podem ocorrer casos por contato próximo e prolongado no ambiente domiciliar, pelo compartilhamento de objetos contaminados, como roupas, toalhas e roupas de cama e, com menor frequência, por gotículas respiratórias em situações de proximidade contínua.
Diante desse cenário, a Fundação orienta as seguintes medidas de prevenção: Identificação precoce e isolamento dos casos suspeitos ou confirmados até a cicatrização completa das lesões; evitar contato íntimo e prolongado com pessoas com sintomas; não compartilhar objetos de uso pessoal; higienizar frequentemente as mãos e superfícies; monitorar contatos próximos; uso adequado de equipamentos de proteção individual (EPI) por profissionais de saúde e fortalecer ações de educação em saúde e comunicação de risco, evitando estigmatização.
ON Jornal: Quais populações ou grupos específicos as vigilâncias estaduais e nacionais identificaram como mais vulneráveis à Mpox, e qual tem sido a abordagem da FVS-RCP para alcançá-los com informações e serviços de prevenção?
Dra. Tatyana Amorim - As vigilâncias em saúde no Brasil têm identificado maior vulnerabilidade à Mpox entre homens adultos, principalmente aqueles com redes de contato íntimo mais amplas. No Amazonas, a análise epidemiológica dos casos registrados em 2025 mostra predominância entre homens.
Dos 87 casos confirmados no estado, todos ocorreram em pessoas do sexo masculino, sendo 94% homens cisgênero. Em relação ao comportamento e à orientação sexual, 76% se declararam homossexuais e 77% relataram relações sexuais com homens. A faixa etária mais atingida foi de 20 a 39 anos (83%), com maior concentração entre 30 e 39 anos (51), padrão semelhante ao observado em outros estados brasileiros e em diversos países.
A abordagem da FVS-RCP tem sido conduzida de forma estratégica e sem estigmatização, com foco em: Vigilância ativa e monitoramento contínuo do perfil epidemiológico; capacitação da rede assistencial, especialmente da Atenção Primária e dos serviços de IST/HIV;
Ações de educação em saúde e comunicação de risco com linguagem clara e baseada em evidências; articulação com movimentos sociais e organizações comunitárias; ampliação do diagnóstico oportuno e rastreamento de contatos e orientação para busca precoce por atendimento diante de sinais e sintomas. A FVS-RCP reforça que, embora determinados grupos apresentem maior concentração de casos no cenário atual, a Mpox pode acometer qualquer pessoa exposta.
ON Jornal: Em termos de prevenção primária, quais medidas concretas a Fundação tem recomendado à população do Amazonas para reduzir o risco de transmissão da Mpox no dia a dia?
Dra. Tatyana Amorim - A principal medida para reduzir o risco de transmissão da Mpox é evitar contato íntimo e prolongado com pessoas que apresentem lesões suspeitas, crostas ou secreções.
Entre as orientações estão: Procurar atendimento de saúde ao identificar lesões cutâneas, febre ou aumento de linfonodos; evitar contato direto com lesões de outras pessoas; não compartilhar objetos de uso pessoal; manter higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool 70; realizar isolamento domiciliar de casos suspeitos ou confirmados até a completa cicatrização das lesões; realizar limpeza e desinfecção de superfícies e objetos de uso comum e buscar avaliação médica em caso de contato com pessoa diagnosticada.
A Fundação também fortalece ações contínuas de educação em saúde, qualificação da rede assistencial e comunicação de risco, garantindo que a população receba informações claras, baseadas em evidências e sem estigmatização. Considerando as características territoriais do Amazonas, com áreas de difícil acesso e intensa mobilidade populacional, a orientação precoce e a identificação rápida de casos são fundamentais para interromper cadeias de transmissão.
ON Jornal: Qual é a posição da FVS-RCP e do Ministério da Saúde em relação ao uso de vacinas no Amazonas? Existe oferta ou previsão de ampliação desse acesso?
Dra. Tatyana Amorim - A posição da FVS-RCP está alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde. No momento, não há recomendação para vacinação em massa contra Mpox no Amazonas.
A estratégia nacional adotada anteriormente foi seletiva e direcionada a grupos com maior risco de exposição, de acordo com a disponibilidade de doses e a avaliação do cenário epidemiológico. Até o momento, não há anúncio oficial de ampliação da oferta da vacina para a população em geral no estado.
ON Jornal: A emergência global de saúde ligada à Mpox já foi tema de alertas internacionais. Como a Fundação tem articulado suas ações com órgãos federais e com a comunidade científica para reforçar a vigilância e o controle da doença?
Dra. Tatyana Amorim – A Mpox foi alvo de alerta internacional, o que reforçou a integração entre os diferentes níveis de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse contexto, a FVS-RCP mantém articulação permanente com o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, seguindo notas técnicas, protocolos clínicos e orientações atualizadas de vigilância epidemiológica.
Também há integração com a rede nacional de laboratórios de saúde pública, além de participação em reuniões técnicas, web conferências e câmaras temáticas promovidas pelo nível federal. Além disso, a Fundação mantém diálogo com instituições acadêmicas e centros de pesquisa, fortalecendo a análise epidemiológica e a tomada de decisão baseada em evidências.
ON Jornal: Olhando para frente, quais estratégias a senhora considera fundamentais para manter o controle da Mpox no Amazonas e evitar surtos futuros, especialmente em áreas rurais e comunidades de difícil acesso?
Dra. Tatyana Amorim - O controle da Mpox no Amazonas depende do fortalecimento de uma vigilância precoce, descentralizada e baseada na análise contínua do cenário epidemiológico. Entre as estratégias prioritárias estão: capacitação permanente da Atenção Primária; diagnóstico oportuno e fluxo laboratorial ágil; investigação rápida de casos e monitoramento de contatos e educação em saúde com comunicação clara e sem estigmatização.
Embora a maior parte dos casos esteja concentrada na capital, é essencial manter estrutura de resposta também nos municípios do interior, especialmente em áreas rurais e comunidades de difícil acesso. A atuação integrada entre a FVS-RCP, o Ministério da Saúde e os municípios é fundamental para manter o controle da doença e prevenir novos surtos.
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