Com mais de 17 anos de atuação médica e formação em Ciências Econômicas e Medicina, Shádia Fraxe consolidou sua trajetória na Medicina e cuidados com as pessoas. Sua capacidade de liderança a levou à direção do Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (IMED) e, posteriormente, a fazer história como a primeira mulher a comandar a Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa).
Sob sua gestão, mesmo diante dos severos desafios da pandemia, a capital amazonense alcançou por sete vezes o melhor resultado em atenção básica entre todas as capitais do país. Shádia vivencia agora um novo momento marcante em sua carreira ao se ingressar definitivamente no cenário político. Ela assume o desafio de ser a primeira mulher e secretária ao disputar uma vaga como deputada federal, buscando transformar o aprendizado de gestão em força legislativa para defender a saúde pública em maior escala, entre outros projetos.
Em entrevista exclusiva concedida ao ON Jornal, ela detalha essa transição da gestão técnica para a arena política, traz uma análise com propriedade, os gargalos estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS), a urgência de um financiamento que respeite o "fator amazônico" e a importância essencial da representatividade feminina nos espaços de poder e decisão. Confira.
ON Jornal: O que a motivou a entrar para a política, algo herdado de família? Ou uma inquietação para mudar e transformar a cidade?
Shádia Fraxe: Minha entrada na política não nasce como ruptura com a medicina nem com a gestão técnica. Ela nasce da compreensão de que o cargo de secretária de saúde já é, em si, um espaço de decisão política, porque envolve orçamento, prioridades e impacto direto na vida das pessoas.
O que me move é a possibilidade de ampliar essa atuação: sair da gestão local para defender, em outro nível, a saúde pública, o SUS e a realidade amazônica com mais força, planejamento e responsabilidade.
ON Jornal: A senhora foi a primeira mulher a comandar a Secretaria Municipal de Saúde de Manaus. Qual o peso de ser agora a primeira secretária da capital a disputar uma vaga de deputada federal?
Shádia Fraxe: Eu recebo isso com senso de responsabilidade, não como símbolo vazio. Ser a primeira mulher em espaços historicamente ocupados por homens tem um peso institucional e também humano.
Mostra que competência, liderança e preparo técnico podem abrir caminhos. Para mim, isso significa representar não apenas uma trajetória pessoal, mas também reforçar que mulheres podem ocupar espaços de decisão com firmeza, capacidade de gestão e compromisso público.
ON Jornal: O que ainda falta para que mais mulheres ocupem espaços de destaque na política do Amazonas? Como a senhora enxerga a importância das mulheres nessa área?
Shádia Fraxe: Ainda falta romper barreiras culturais muito profundas. A mulher na política ainda enfrenta mais cobrança, mais julgamento e, muitas vezes, precisa provar o dobro para ter o mesmo reconhecimento.
Eu vejo a presença feminina como algo essencial, não como concessão simbólica. Mulheres ampliam o debate público, trazem novas prioridades, mais sensibilidade social e uma visão concreta sobre cuidado, proteção e dignidade. Política melhor se faz com mais competência e também com mais diversidade de experiência.
ON Jornal: Qual a visão que a senhora tem hoje sobre o atual cenário político em nossa cidade, em nosso estado?
Shádia Fraxe: Vejo um cenário que exige menos discurso superficial e mais capacidade de entrega. Manaus e o Amazonas têm desafios estruturais muito específicos, especialmente na saúde, na logística e na desigualdade territorial. O momento pede seriedade, articulação institucional e representação qualificada, porque nossa realidade não pode continuar sendo tratada com soluções genéricas pensadas para outras regiões do país.
ON Jornal: Manaus liderou por sete vezes o ranking nacional de atenção básica, mesmo na pandemia. Hoje, na sua visão quais problemas na cidade que merecem uma atenção e solução imediata?
Shádia Fraxe: A cidade precisa enfrentar com prioridade a consolidação da atenção primária, a organização do fluxo assistencial e a redução da pressão sobre a rede de maior complexidade. Também é fundamental continuar investindo em estrutura, equipe qualificada, prevenção e resposta territorial.
Quando a atenção básica funciona bem, ela melhora pré-natal, controle de doenças crônicas, vacinação, acompanhamento das famílias e evita agravamentos que terminam sobrecarregando hospitais e prontos-socorros.
ON Jornal: A senhora defende o SUS como uma verdadeira revolução. Diante dos desafios atuais, o que precisa ser mudado no sistema em caráter emergencial?
Shádia Fraxe: O mais urgente é fortalecer a base do sistema. Isso significa investir de forma real na atenção primária, organizar melhor a regionalização do cuidado, melhorar o financiamento e garantir integração entre os entes públicos. O SUS funciona quando há coordenação, planejamento e compromisso técnico. O problema não está na ideia do sistema, mas na insuficiência de estrutura, financiamento adequado e adaptação às realidades concretas, especialmente na Amazônia.
ON Jornal: Além disso, como a senhora avalia as reais carências do setor hoje, contrastando a realidade da cidade com a do interior?
Shádia Fraxe: A principal diferença é que Manaus concentra estrutura, profissionais e serviços que muitas vezes não existem com a mesma capacidade no interior. No interior, os desafios se agravam por causa da distância, da dificuldade logística, da fixação de profissionais e da menor resolutividade local.
Isso gera dependência excessiva da capital. Então, enquanto Manaus precisa qualificar continuamente a rede e organizar fluxos, o interior precisa ganhar mais capacidade concreta de resolver sua própria demanda, com polos regionais mais fortes e melhor retaguarda assistencial.
ON Jornal: Como levar saúde de qualidade para o interior do Amazonas, considerando as dificuldades de transporte e isolamento das comunidades?
Shádia Fraxe: O primeiro passo é reconhecer que a Amazônia não pode ser tratada com os mesmos parâmetros de outras regiões.
Levar saúde de qualidade para o interior exige fortalecer municípios-polo, estruturar redes regionais de cuidado, garantir transporte sanitário, fixar equipes multiprofissionais e defender financiamento compatível com o fator amazônico.
Regionalizar, nesse caso, não é slogan: é fazer o SUS caber na Amazônia real, onde distância se mede em horas e dias, e não apenas em quilômetros.
ON Jornal: Quais são os desafios ao trocar a gestão estritamente técnica da medicina e da secretaria pela disputa de um cargo político?
Shádia Fraxe: O maior desafio é traduzir experiência técnica em representação pública sem perder a seriedade, a coerência e o compromisso com resultados. Eu não vejo essa transição como abandono da técnica, mas como expansão dela.
O desafio está em sair da execução direta para um espaço em que é preciso defender ideias, orçamento, prioridades e soluções estruturais. É uma mudança de arena, mas com a mesma base: responsabilidade, planejamento e compromisso com a vida das pessoas.
ON Jornal: Se eleita deputada federal, quais serão as principais bandeiras do seu mandato? Poderia destacar os principais projetos que considera mais fundamentais?
Shádia Fraxe: Minha prioridade será transformar a experiência de gestão em defesa concreta da saúde pública e da realidade amazônica. As principais bandeiras passam por financiamento mais justo para a saúde na Amazônia, fortalecimento da atenção primária, regionalização do SUS, estruturação de polos no interior e políticas que melhorem a fixação e a qualificação dos profissionais.
O meu foco é defender soluções viáveis, com base técnica, para que o Amazonas tenha políticas públicas compatíveis com sua geografia, seu custo real e suas necessidades permanentes.
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