quinta, 23 de abril de 2026
15/01/2022   08:00h - Entrevistas

Dia Mundial do Compositor: ON Jornal entrevista Chico da Silva, criador ícone de toadas e sambas de sucesso

O Dia Mundial do Compositor é comemorado anualmente em 15 de janeiro. A data homenageia todos os compositores do mundo, especialmente o seu trabalho e esforço para compor, escrever e criar músicas.

 

Os compositores são verdadeiros artistas, que utilizam o domínio da técnica das notas musicais para criar melodias. Além da técnica, utilizam toda a criatividade e sensibilidade para escrever canções que emocionam e animam multidões de pessoas.
No Amazonas, Francisco Ferreira da Silva, ‘Chico da Silva’, é um dos cantores, compositores e poetas amazonense mais conhecido do país. O parintinense que compôs músicas para Alcione e já trabalhou com Martinho da Vila, é autor de inúmeras composições de toadas de Boi Bumbá, além de sambas que ganharam o Brasil, como Vermelho; Tempo Bom; Pandeiro é Meu Nome; Esquadrão do Samba; É Preciso Muito Amor; Domingo de Manaus; Cantiga de Parintins; entre outros.
 
 
Hoje, o ON Jornal faz uma homenagem a esse compositor que tem levado o nome do Amazonas para vários cantos do Brasil e do mundo. Em entrevista especial, ele fala sobre sua carreira, sonhos conquistados e futuros projetos. Confira.
 
 
ON Jornal – Você sempre sonhou em ser compositor e cantor? Caso não fosse um artista hoje, qual outra profissão você teria?
Chico da Silva – Olha, na realidade eu nunca sonhei em ser compositor ou cantor. Tudo foi acontecendo de forma natural. Quando criança, eu já gostava de cantar e escrever. Mas só depois de adulto, depois dos 18 anos, é que eu comecei a tomar gosto pela música, devido a minha interação com amigos, que me elogiavam muito. A minha voz e músicas próprias eram muito elogiadas. Eu gostava disso, mas nunca sonhei em ser cantor.
Porém, chegou uma época que eu tinha que escolher, seguir outra profissão ou ser cantor e compositor. Então eu escolhi e consegui um artista renomado. Mas se eu não fosse isso hoje, eu tinha grande apreço pelas profissões de engenharia naval e direito. Eu gostava muito de motor, de viajar e isso era uma paixão de infância. Já o direito, por que na minha família tem muita gente de direito. Eu poderia ter escolhido essa profissão também.
ON Jornal – Como foi a experiencia de poder colaborar com artistas nacionais conhecidos? Existe um trabalho e um cantor especifico que mais gostou de trabalhar junto?
Chico da Silva – Trabalhar com outros grandes artistas foi uma grande experiencia pra mim, isso fortalece o trabalho da gente, abre-se um leque e uma oportunidade de você mostrar o teu trabalho.
 
 
A minha relação com os artistas na época foi muito boa, com todos. Minha relação maior foi com a cantora Alcione, mas também com outros artistas como: Jair Rodrigues e Joao Nogueira, que era muito meu amigo.
Porém, a mais especial foi com a Alcione, ela foi minha companheira na gravadora, na hoje chamada Universal Music. Ela chegou a gravar três composições minhas de samba. Minha relação com ela é muito boa.
ON Jornal – Pra você que criou belas canções, como é o processo de construir uma música ou uma melodia? Existe alguma atividade que sirva de fonte de inspiração na hora de cria-las?
Chico da Silva – O processo é algo natural. Pra mim, não existe um lugar que me traga inspiração. Nada interfere no poder da criação.
 
 
Às vezes, até em sonho me vem inspiração. Já sonhei com melodias que eu acordei e gravei a música. Primeiro eu pego o violão, faço os acordes da melodia e depois eu coloco as letras. Esse é meu processo.
A atividade que faz eu criar as músicas, é eu estar no violão. Eu faço assim. E sempre me procuro também em ver se não tem alguma obra parecida no mercado, para não cometer alguma violação.
 
 
ON Jornal – Dentre várias obras que fizeram sucesso e que você tem muito orgulho, qual canção você elegeria “a menina dos seus olhos” e porquê?
Chico da Silva – Olha, a obra é mais ou menos como se fosse um filho, é seu coração, é sua alma. É algo divino. Claro, pra você todas são iguais, mas tem aquelas que se fazem mais presentes, como se fosse um filho seu que vive próximo de você.
 
 
No caso da música, o samba “Pandeiro é Meu Nome”, posso dizer que é a “menina dos meus olhos”, é um samba que foi bem arquitetado, foi muito bem feito. Não só eu, mas várias pessoas consideram isso, pois é a música que tem mais gravações e tem mais visualizações nas plataformas digitais. Eu canto essa música em qualquer parte do Brasil que todos cantam comigo. Todo mundo conhece a letra ou o ritmo. Ela, com certeza, é meu hino nacional.
 
 
ON Jornal – Você teve boa parte da carreira compondo para o samba e toadas de boi bumbá, onde emplacou sucessos em ambos os ritmos. Quais as particularidades de escrever para os dois gêneros? Existe um fácil e outro difícil?
Chico da Silva – Sim, sim. Eu acho que compor samba, não que seja mais fácil pra mim, mas eu tenho mais desenvoltura para o samba. Isso por que flui muito naturalmente.
Já as toadas, são um pouco mais difíceis, por que não tem só a melodia, tem a letra também. E se tratando dos bois, cada um tem suas particularidades, no ritmo, na letra. Parece que é tudo igual, mas não é. E devido a isso, é um pouco difícil contribuir para os bois.
 
 
As minhas toadas para o Garantido ficaram muito famosas por causa de vários fatores: a música, a forte divulgação do boi garantido, que lançou isso de forma nacional e internacional. Mas eu compus para os dois bois muito bem.
 
 
ON Jornal – Você é parintinense e grande torcedor do festival de Parintins. Como foi pra você ver a toada ‘Vermelho’ ecoando no Brasil e atravessando fronteiras mundo afora? E como foi também poder colabora com os dois bois?
Chico da Silva – Bom, o “Vermelho” começou a andar em Manaus, no auge do festival, e como o festival era transmitido de forma nacional, ganhou rápida notoriedade.
Com isso, vieram regravações como Marcia Freire e Fafá de Belém e o próprio David Assayag. Eu fico muito feliz hoje com tudo isso.
 
 
Com o sucesso, acabei compondo para os dois bois, isso foi uma honra muito grande pra mim. Fazer toada para os dois bois foi o maior presente da minha história musical. Sou muito agradecido por tudo.
 
 
ON Jornal – Chico, você enfrentou um batalhas contra um câncer na garganta, em 1988, que o afastou por um tempo dos palcos e o consagrou compositor de toadas. Como foi pra você esse processo da descoberta e recomeço?
Chico da Silva – Olha, eu sempre digo que Deus é maravilho. Quando isso aconteceu, eu não me abalei. Eu sou uma pessoa muito crente. Acredito em sua divindade.
Quando eu tive esse problema na garganta, eu aceitei. E logo em seguida apareceu essa oportunidade com os bois. Esse processo me ajudou a crescer. Não podia cantar, mas podia escrever.
 
 
Esse processo de mudança me segurou vivo na cultura e na arte. E novamente eu agradeço muito aos bumbás e a Deus. Mas, eu acredito que eu fiquei devendo, eu poderia ter feito muito mais. Acredito que isso que me aconteceu, tudo foi uma descoberta e um recomeço. O compositor permaneceu vivo dentro de mim.
ON Jornal – Enquanto pessoa e artista qual foi o maior sonho já realizado? E, existe algum que ainda não realizou?
Chico da Silva – Meu maior sonho realizado foi minha família. Você ter uma grande família, filhos, netos, isso é o maior. A música é um desdobramento natural. Não existe algo maior do que ter filhos e netos.
E olha, esse sonho não foi sonhado. Mas quando tive minha família, eu pude perceber que era o meu maior bem.
 
 
O sonho ainda não realizado, é o de voltar a cantar, por que o cantor dentro de mim ainda não se acabou. Ainda preciso realizar esse sonho inacabado. Ele foi apenas interrompido.
Se Deus quiser, eu gostaria que ele me concedesse a oportunidade de voltar a cantar.
 
 
ON Jornal – Como está o seu trabalho atualmente? Continua compondo ou fazendo shows? Onde podemos encontrar e apreciar a arte do mestre Chico da Silva?
Chico da Silva – Olha, tivemos dois anos de período pandêmico né. No mundo todo tudo parou, e nós artistas demos uma freada nos nossos projetos, nos nossos anseios.
Mas, a gente continua com o pensamento de voltar assim que as coisas melhorarem. Já tenho em mente projetos para quando voltar.
 
 
Eu escrevi vários sambas durante a pandemia. Mesmo com tudo parado, eu não parei, continuei compondo, tanto samba quanto toadas.
Agora, eu faço um show eventualmente para sobreviver, nada muito grande.
Além disso, você pode apreciar a arte de Chico da Silva nas plataformas digitais. Minhas músicas estão lá para quem quiser ouvi-las e aprecia-las. Assim que eu for convidado para fazer shows, eu vou divulgar para todos.
 
 

 

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