Como tudo começou?
O delegado Henrique Damasceno, titular da Barra da Tijuca, que é um delegado da minha mais absoluta confiança, eu que indiquei pra Barra, ele já trabalhou comigo na delegacia de combate às drogas. Ele me ligou, dizendo que tinha um caso sensível, da morte de uma criança de apenas 4 anos. E o relato apresentado era de acidente doméstico. No entanto, como ele tinha muita experiência com homicídios, ele estava achando o caso estranho. E que estava requerendo uma atenção especial da Polícia Civil. E combinamos de fazer isso. De acionar os médicos legais, foi feita uma perícia no apartamento no mesmo dia. Porque é aquilo. A família está abalada, enlutada, perdeu uma criança de 4 anos. É um caso que por si só já exige da polícia muita sensibilidade, muita cautela. Muita humanidade. Por mais que a gente desconfie, precisa ter muito cuidado, porque a gente está diante de uma família enlutada. E assim foi feito. Foi feita uma perícia preliminar. O corpo foi encaminhado pro IML. A gente fez contato com a equipe de plantão e pediu uma atenção à diretora.
Como todos ficaram quando o laudo mostrou a extensão das lesões do menino?
Quando veio o resultado, isso criou um alerta maior ainda. Porque as lesões eram lesões que numa primeira análise pareciam incompatíveis com o relato que a família estava trazendo, de que o menino havia sofrido um acidente, uma possível queda de uma cama. Dali, com esse laudo, começamos a discutir diariamente o caso. Como a gente iria enfrentar isso. Nem a mãe nem o padrasto, num primeiro momento, foram depor.
Quem apresentou o fato na delegacia foi o pai, que não estava no apartamento e por isso não tinha maiores informações. Nós começamos a ter contato diário com as equipes médico-legais e vislumbramos a necessidade de aprofundar a investigação pra entender o que havia levado àquelas lesões. A gente criou uma espécie de grupo de trabalho pra isso. Eu promovi uma delegada, a delegada-adjunta Ana Carolina Medeiros, uma delegada excelente. Eu a nomeei delegada-assistente para, juntamente com o delegado Henrique, conduzir a investigação. Até então ela era delegada plantonista. Por ser mulher, eu entendi que seria bom ter uma autoridade policial feminina, porque envolvia uma mãe. Era um caso todo sensível..
Foi um caso diferente desta vez?
Você começa realmente a ficar impactado com aquilo. Eu tenho 20 anos como delegado de polícia, já fui titular de várias delegacias importantes. Ao longo da nossa carreira, a gente vai se habituando com crimes violentos, mas quando a gente se depara com a morte de uma criança, isso mexe com seu emocional, isso te choca. Ainda mais quando é um fato envolvendo uma mãe.
E à medida que fomos aprofundando, fomos verificar como era o comportamento daquela mãe. Se era uma mãe carinhosa, se era uma mãe cuidadosa. E num primeiro momento o que a gente via era que a senhora Monique era uma mãe muito boa, muita dedicada, gentil com o filho. No entanto, a gente foi aprofundando a investigação, os depoimentos foram tomados. A gente foi verificando junto à perícia, fizemos a reprodução simulada. Aí, você começa a olhar o apartamento, as coisinhas dele, os desenhos, a mochilinha dele. Tudo isso impacta. Apesar de você já estar acostumado com a atividade policial, que te deixa habituado a ver coisas muito ruins do ser humano. Você acaba vendo o que o ser humano é capaz de fazer. Os crimes mais violentos são investigados pela Polícia Civil. Você se depara com o lado mais perverso do ser humano, então, dificilmente algo te tira da sua estabilidade. Mas quando envolve uma criança... Nós somos profissionais, mas somos seremos humanos. Isso traz um impacto. O que bastante me impressionou foi isso. O apartamento, as coisinhas da criança, a mochilinha dele. Os desenhinhos. Os vídeos dele. Você via que era uma criança muito encantadora. A maneira dele falar, cantando, dançando, alegre. Isso realmente deixou toda equipe policial com mais determinação de descobrir a verdade sobre o que aconteceu com aquele menino. Porque nós queríamos fazer justiça. Mas com todo cuidado, toda técnica.
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