quarta, 22 de julho de 2026
11/07/2026   08:00h - Entrevistas

Anderson Lima: comissário de Vôo, apaixonado pelo festival de Parintins, relata triste episódio ao ser expulso de camarote e agredido por servidores públicos no Bumbódromo

O 59º Festival Folclórico de Parintins entrou para a história como uma das edições mais acirradas, técnicas e emocionantes de todos os tempos. Mas o que era pra ser um lugar de festa e harmonia entre os torcedores do Boi Garantido e Boi Caprichoso, para alguns, se tornou um pesadelo.

 

O comissário de voo, Anderson Lima, denunciou que foi vítima de homofobia, agressão física e expulsão truculenta durante a primeira noite Festival dentro do Bumbódromo. O episódio aconteceu no camarote 38, localizado no sétimo andar da arena, piso Tapiri, em um espaço institucional pertencente ao Governo do Estado e à (ALEAM), onde Anderson acompanhava a apresentação do Boi Garantido.

 

Segundo ele, tudo começou quando foi puxado por um rapaz para o camarote ao lado, que o apresentou a duas mulheres, feito isso, ao fazer um elogio à blusa de uma das mulheres, um senhor confundiu a situação e pensou que Anderson estava cortejando a mulher. De forma ríspida, o homem partiu pra cima de Anderson e proferiu palavras ofensivas e homofóbicas. Anderson evitou a agressão, se retirando daquele camarote e se dirigiu para o que estava devidamente credenciado. O caso chegou ao extremo, resultando na expulsão e agressão de Anderson de forma desproporcional, covarde e humilhante.

 

Para entender melhor o que realmente aconteceu, o ON Jornal conversou com a vítima, que explicou os detalhes e quais procedência foram tomadas até o momento, passados mais de 10 dias do episódio. Confira.

 

ON Jornal-  Antes de tudo, qual o tamanho da sua paixão pelo Festival de Parintins? A ilha da Magia é parada obrigatória todos os anos?

Anderson Lima-  O Festival de Parintins é uma paixão de criança, em especial a paixão pelo Boi Caprichoso.

 

Quando curumim acompanhava as apresentações do Caprichoso pela TV (me recusava assistir o contrário, haha), na companhia de uma grande amiga-irmã, a Fabiana. Ela, que era apaixonada pelo touro negro de Parintins, foi capaz de me transmitir essa paixão e assim me tornei um torcedor ainda mais fiel do que ela mesma nos dias de hoje.

 

Vou a Parintins desde 2003 e consigo sentir/lembrar a emoção do primeiro rufar do tambor, da primeira toada da primeira noite daquele ano. Desde então, há exatos 23 anos o festival está na minha programação de junho, nos últimos anos peço férias nesse mês, para conseguir estar na ilha o maior número de dias possível e acompanhar os eventos que antecedem propriamente os dias de festival. Tenho um caso de amor longo com Parintins e o Festival Folclórico. É onde fico feliz e estou na minha plenitude, e conexão que não se explica, só quem ama é capaz de sentir.

 

ON Jornal- Sobre o triste caso no camarote 38, como realmente iniciou?

 

Anderson Lima- O caso iniciou ao seu levado/puxado pelas mãos pra o camarote ao lado do meu enquanto retornava do banheiro. Um rapaz que eu havia conversado por alguns minutos durante a apresentação do Boi Caprichoso, já havia me apresentado pelo lado de fora do camarote, duas mulheres enquanto eu me dirigia ao banheiro, já na apresentação do Garantido. Enquanto retornava do banheiro ele me puxou pra dentro desse camarote e insistiu em apresentar as mulheres novamente, agora dentro do camarote. Após ter cumprimentado elas, um dos adereços de braço da mulher com mais idade estava caindo e ela pediu ajuda desse rapaz, amigo dela. Nesse momento, após ajudá-la com o bracelete, eu coloquei a mão direita no seu ombro e elogiei sua blusa: “que blusa bonita!”. Foi quando o senhor surgiu vindo da direção do parapeito com vista pra arena do camarote, proferindo palavras ofensivas e homofóbicas contra mim e eu me retirei do camarote, retornando pro camarote 38, da ALEAM.

 

Após poucos minutos, enquanto tentava me acalmar, uma mulher com camisa de “uniforme”, perguntou meu nome, se dirigiu a outro homem no parapeito a minha frente, disse algo em seu ouvido, após isso ele olhou em minha direção com olhar de ódio, a mulher então perguntou de quem eu havia ganhado o convite pro camarote, eu disse: ganhei de um amigo, de tão nervoso que estava, não tive ação de dizer seu nome e me dirigir até ele. Mas não tive tempo, nesse momento essa mulher e esse homem deram autorização pra 3 “homens” com a mesma camisa da mulher que me abordou, para me retirarem. Assim eu fui levado de forma covarde e truculenta pelos braços, pescoço e empurrão nas costas, ouvindo palavras ofensivas e homofóbicas, do sétimo andar ao térreo e colocado para fora do bumbódromo como um marginal

 

ON Jornal- Você conseguiu identificar essas pessoas que agiram de forma despreparada?

 

Anderson Lima- Naquele momento, eles não deixavam eu ver os rostos e o que estava escrito em suas camisas. Tudo isso, somado ao nervosismo, crise de ansiedade e falta de ar que tive durante a ação daqueles homens nas rampas da parte de trás do bumbódromo, até o dia seguinte, quando fiz o vídeo, eu achava se tratar de seguranças da empresa contratada pela Amazon Best. Porém após, ouvir testemunhas e receber imagens do caso, eu vi que se tratava de servidores públicos da Casa Militar, portanto funcionários públicos que deveriam estar ali para garantir a segurança de todo e qualquer cidadão, não de um grupo ou “pessoa privilegiada” por algum cargo público que ocupa.

 

ON Jornal- O que houve após o fato?  Como foi sua noite após o episódio?

 

Anderson Lima- Após o ocorrido e após, ainda tentar ser agredido mais violentamente do lado de fora por um dos homens do grupo de 4 servidores que me escorraçou, ali fora, procurei ajuda de polícias que estavam em dupla na frente do bumbódromo e não tive acolhimento algum, nem tentativa de entender o caso, muito menos atitude profissional capacitada perante o ocorrido.

 

Liguei para alguns amigos, porém devido o horário somente uma grande amiga (um anjo) me atendeu, foi até mim e dali procuramos a delegacia com a ajuda do Google Maps, pois a outra dupla de policiais que nos dirigimos para pedir informações e relatar o caso, não sabiam sequer no informar onde se localizava a delegacia mais próxima para o registro do boletim de ocorrência. O restante da noite se resumiu a delegacia, choro. Voltei para pousada e vi o dia amanhecer em claro, não consegui dormir.

 

ON Jornal– Você tomou providencias sobre a situação. Como as autoridades receberam sua denúncia? E qual status está a investigação?

 

Anderson Lima- Todas as medidas necessárias foram tomadas e continuam sendo tomadas. Tive apoio de amigos bem relacionados, de uma grande profissional da SEJUSC, que me acompanhou do CREAS de Parintins até a Defensoria Pública, posteriormente retornamos a delegacia para outra outiva e realização de exame de corpo de delito.

 

Em Manaus o caso foi levado ao Ministerio Público do Amazonas e a Corregedoria do Estado do Amazonas, com acompanhamento de meus advogados. E estou no aguardo das devidas medidas contra os já identificados servidores que me ocasionaram tamanho constrangimento seguido de agressão física, homofobia e danos psicológicos.

 

ON Jornal- A partir de agora, o que espera que seja feito e qual sentimento ficou após viver tudo isso?

 

Anderson Lima- O sentimento é de impotência e de gigantesca frustração, por ter vivido enquanto vítima, da realidade de um sistema que protege um grupo privilegiado, pessoas que ocupam posições de “poder” e deveriam ser exemplo de segurança pública, de honestidade, profissionalismo e ética.

 

Vivemos num estado democrático de direito, eu sou um cidadão do bem, sem nenhuma passagem pela polícia, não havia motivos pra terem destruído um festival que é meu sonho todos os anos, planejado e investido com intuito de transcorrer da melhor maneira possível.

 

Espero que as devidas medidas sejam tomadas, pra começar, a exoneração desses “senhores” que me enxotaram sem me dar chances de argumento ou defesa (eu pedi insistentemente pra me levarem na delegacia interativa dentro do bumbódromo). Espero que os demais veículos de comunicação do nosso estado, sigam o exemplo de jornalismo deste e cumpram seu papel com a sociedade. Os principais foram informados por e-mail, telefone/WhatsApp de denúncias e Instagram.

 

No endereço do instagram @araujolimaanderson você acompanhar a trajetória de Anderson. Ele também participou do podcast ao vivo no programa ‘POD Fala Diversidade’, apresentado por Thamara Pereira. Você pode ver edição completa no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=eAP50vOq4AY).

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