O cinema de horror por décadas encontrou nas suas convenções mais sangrentas um espelho cruel das angústias sociais. Do fascínio voyeurístico do corte às punições morais infligidas ao corpo feminino, o subgênero slasher sempre operou sob um código estrito. Em seu mais recente projeto, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, o cineasta Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV) decide invadir esse terreno consagrado não para destruí-lo, mas para dissecar suas entranhas e reescrevê-lo sob uma perspectiva profundamente íntima e reflexiva.
O ponto de partida acompanha Kris (interpretada por Hannah Einbinder, de Hacks), uma cineasta queer escalada para revigorar uma lendária franquia de terror. Para a jovem diretora, o convite transcende o mero passo profissional: aquela saga foi o motor primordial que despertou seu fascínio pela sétima arte e, paradoxalmente, a bússola que a ajudou a navegar pelas dobras de sua própria sexualidade. Sua missão de atualizar o universo da obra com inclusão e sensibilidade contemporânea a leva aos rastros de Billy Preston (Gillian Anderson), a lendária final girl dos filmes originais, que hoje vive reclusa em uma propriedade isolada.
O encontro entre a criadora e seu ídolo instaura uma metalinguagem sutil e envolvente. Enquanto Kris enfrenta o isolamento físico o GPS que falha, as estradas cobertas pela neve e o contato com tipos excêntricos ligados aos bastidores dos velhos filmes, a narrativa evoca os clichês clássicos para desconstruí-los por dentro. A residência onde Billy se refugiou é, ela própria, um dos cenários originais da franquia, convertendo o espaço físico em um monumento de nostalgia, aprisionamento e trauma.
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À medida que o convívio se adensa, a reverência inicial dá lugar a uma tensão carregada de sensualidade e fragilidade. Longe dos holofotes, a antiga estrela revela que as lâminas do passado deixaram cicatrizes reais. Schoenbrun aborda o desejo e o afeto entre as duas mulheres com rigor psicológico e cuidado sensorial, estabelecendo um contraste marcante com a tradição do slasher, historica e sistematicamente marcada pela objetificação e pela violência contra o corpo feminino. Ali, o sexo não surge como fetiche visual, mas como linguagem de vulnerabilidade e reconstrução.
"O horror deixa de ser um espetáculo de violência gratuita para se tornar o vocabulário através do qual feridas invisíveis são finalmente pronunciadas."
Graficamente impecável, o longa ainda se apoia na química magnética entre suas intérpretes. Gillian Anderson entrega uma atração enigmática, rouca e melancólica, enquanto Einbinder equilibra com precisão a insegurança da fã e a autoridade da cineasta em busca da própria voz. O elenco secundário, com destaques como Eva Victor em uma caracterização irreconhecível, reforça a sátira aos estereótipos sexistas e transfóbicos herdados das décadas passadas, subvertendo-os com ironia inteligente.
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Uma das sequências mais memoráveis da obra, um plano-sequência ritmado pela canção A Long December, da banda Counting Crows, sintetiza perfeitamente a proposta de Schoenbrun: celebrar a estética do terror noventista ao mesmo tempo em que escancara suas limitações estruturais.
Laureado com a prestigiada Queer Palm no Festival de Cannes por sua contribuição ao cinema LGBTQIA+, Acampamento Miasma prova que ressignificar o passado exige coragem para encarar suas sombras. Ao resgatar o protagonismo das mulheres e colocá-las no comando de seus próprios desejos, medos e narrativas, o filme entrega uma experiência que vai além do susto superficial, deixando no ar a incômoda indagação sobre quantas de nossas paixões culturais foram erguidas sobre o silêncio e o sofrimento alheios.
Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte tem estreia confirmada nos cinemas brasileiros para o dia 13 de agosto.
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