Registrar cada momento da infância de suas crianças “virou febre”, no Brasil. E, Manaus também entrou nessa modinha. Fotos, vídeos, trabalhos escolares e passeios estão na lista desses pais e tudo vira um maravilhoso instrumento de recordação. Mas, até onde essa exposição é saudável? Esse é um dos principais questionamentos dos pais.
Para esclarecer e alertar os responsáveis, o On Jornal entrevistou, Suzane Anselmo, psicóloga e especialista em neurociência, desenvolvimento humano, alta performance e saúde mental.
Em entrevista, a doutora Suzane Anselmo destacou que o assunto é bastante complexo e, é preciso alertar os pais em relação ao excesso de exposição dessas crianças.
Suzane deixou claro que devem existir “regras” para as crianças e adolescentes que utilizam as redes sociais, e principalmente elas devem ser supervisionadas.
“O perigo é de exposição, a criança não ter o limite até onde ela pode postar. O que ela pode postar e até que horas. O que fazer e quanto tempo passar em determina rede social. Que tipo de conteúdo ela vai estar postando, quais conteúdos vai estar consumindo”, pontuou.
De acordo com a psicóloga, o perigo começa a partir do momento em que a criança cria um perfil, os dados digitais das crianças podem ser utilizados para diferentes finalidades, desde o roubo de identidade até o uso indevido de imagens e vídeos por pedófilos.
“Um perfil que é somente comandado pela criança, tem uma grande chance de adicionar pessoas que são perigosas e duvidosas, de estar interagindo com pessoas que também podem estar expondo e colocando em riscos a sua vida. Também tem a questão de violência física e sexual, a gente está falando de erotizar demais uma criança que ainda não está na idade. Então nós temos várias complicações com o fato de uma criança ter uma rede social e consumir”, alertou.
Segundo ela, os pais precisam zelar justamente pela privacidade dos filhos.
“Um problema também é quando eles consomem através das redes sociais dos pais, conforme ele vai buscando pesquisando, o algoritmo vai mandando justamente aquilo que aquele perfil busca. E o pai busca uma coisa diferente do que uma criança, só que ela vai estar consumindo aquilo que o pai busca e não o que ela tem buscado, então ainda mais agora essa exposição desnecessária a conteúdos, assuntos que não são pertinentes a faixa etária daquela criança”, ressaltou.
Suzane Anselmo reforçou que os pais são os principais responsáveis pela exposição de crianças na internet. Segundo ela, é preciso estar atento e ter bom senso na hora de compartilhar uma foto de uma criança nas redes sociais e entender que os seus direitos também precisam ser preservados.
“Até para postar uma foto a gente precisa ter um bom senso, as fotos que mais viralizam infelizmente são aquelas que tem algum tipo de apelo sexual, as fotos que as pessoas acabam olhando mais, vendo compartilhando não precisa necessariamente ter nudez e exposição. Mas quando a foto evidencia uma parte intima, por exemplo de uma criança, ela pode estar vestida, mas o gesto como ela faz, a foto como foi tirada, isso muda muito o contexto e vai determinar também o nível de entrega. Pois quanto mais as pessoas visualizam e pausam na foto, mais as redes sociais vão estar entregando o conteúdo”, enfatizou.
Segundo a especialista em neurociência, a publicação de uma foto aparentemente simples pode ter diversas interpretações e prejuízos, mesmo anos após a postagem.
“As vezes não é porque necessariamente a foto é fofinha, mas é porque existe algum tipo de apelo sexual intrínseco naquela foto, e agente falaria aqui de neuromarketing e outras questões neurológicas, não só a questão psicológica. Quando a gente está olhando para uma foto a gente não tá buscando a questão da sexualidade, mas institivamente há um olhar para essa parte do decote da blusa, no formato da questão da área intima, ali da região do quadril, a cintura. Então as crianças têm vestido roupas mais curtas, uma foto que ela postou ali sem nenhuma má intenção, acaba sendo compartilhada e viralizada várias vezes por uma questão de um apelo sexual numa criança e vai atrair com isso pessoas de má índole, com segundas intenções, que normalmente não estão ali oficializando isso, usando fotos de outras crianças, usam perfis fakes para poder tá consumindo esse tipo de conteúdo”, alertou.
Limites, frustação, identidade – Suzane Anselmo comentou que de fato a gente não pode impedir que as crianças tenham contato com as redes sociais com o uso de telas, mas é preciso estar atento as exposições excessivas.
“É uma realidade do nosso dia a dia, é uma ferramenta necessária e importante, porém os limites quem deve colocá-los são os pais e responsáveis. Uma criança não vai dizer, a hoje eu vou acessar por 30 minutos, porque depois disso eu tenho que estudar, ou que vai me prejudicar em alguma questão. Então esse uso exagerado, além dela estar consumindo algo que não retrata a realidade 100%, pelo contrário muitas vezes são criados conteúdo para engajar, são situações de palco onde não demonstram realmente o que acontece atrás dos bastidores, então eu mostro só a parte boa da minha vida, meus bons momentos, viagens, brincadeiras, diversão e que isso não se resume na nossa vida, nossa vida é bastidor no sentido de trabalho, estudo dedicação, esforço, sacrifício. Mas uma criança que tá visualizando diariamente uma rede social é como se ela estivesse vivendo aquele mundinho, onde tudo pode, tudo é possível, todo mudo tem, então ela também quer ter, e acaba gerando esse sentimento de frustação, seja pela autoimagem.
Expor uma criança em fotos com pouca roupa, além de atrair pedófilos pode causar um constrangimento no futuro, para o próprio filho, alertou a psicóloga.
“Infelizmente. Mas é muito além disso, quando a gente expõe o corpo de uma criança, a gente tá expondo dela o que há de mais sagrado. E acaba que essa questão da imagem fica distorcida, para eu aparecer, eu tenho que está mostrando alguma coisa e infelizmente a gente tem um viés de cultura de moda, as roupas cada vez mais estão menores. As pessoas que estão fazendo ‘sucesso’ usam um apelo para questão física, pra questão da aparência é gritante, e a criança não consegue discernir. E, é no momento que você expõe o corpo de uma criança ela tá entendendo também de uma forma subliminar que precisa tá mostrando para ser alguma coisa, quando está tudo coberto eu sou um simples ser humano, quando algo está aparente, com uma roupa que grita mais do que eu, vamos dizer assim, então isso consegue imperar, atrai podofilos, pessoas que não tem e nem tinham a má intenção de olhar para a criança com outros olhos, mas pela exposição daquela criança começam a ter ideias e tudo isso vai gerando uma energia emocional, quântica, uma energia ruim em volta dessa criança, o olhar das pessoas condenado não só a criança, mais também os pais”, ressaltou.
Suzane destacou que cabe aos pais garantir o respeito e a segurança dessas crianças. E, isso é preciso ser abordado de uma maneira que todos possam entender o limite nas redes sociais.
“Todos os pais são responsáveis, todos nós adultos somos responsáveis pelas crianças, não só os nossos filhos, mas todas aquelas crianças e adolescentes que estão a nossa volta e que a gente vê que pode de algum modo intervir, inclusive. É um direito, mas também é um dever nosso, como pessoas como sociedade. Mas voltando ao núcleo familiar os pais são responsáveis pela segurança física e emocional dessa criança, no momento que a deixo vulnerável com excesso de redes sociais e telas, é porque de algum modo o meu papel como pai ou mãe está deixando a desejar”, frisou.
O hábito de postar fotos e vídeos é crescente, por isso Suzane deixa claro que essas atitudes podem trazer consequências indesejadas e impactos negativos de longo prazo da vida dessas crianças e adolescentes.
“O quanto que é realmente complexo, porém nesse momento muito relevante que os pais tenham esse entendimento essa consciência, de que não é uma modinha, que isso vai passar na vida dos seus filhos e do nada eles vão dar um start, e priorizar o que é mais importante, que seria a família o estudo, o tempo consigo mesmo, com os amigos. A criança não terá esse discernimento se não for ensinada do que é importante. E a única forma hoje que nós temos segura de ensinarmos e fortalecermos a vida emocional dos nossos filhos. É vivendo experiência e se conectando a eles, é dando limites, ensinando o que é responsabilidade, o que são as consequências pelos nossos atos, e a gente só consegue ensinar isso aos nossos filhos vivenciando com eles e não falando para eles o que é, e que não é”, reforçou.
Suzane Anselmo explicou que é importante os pais perceberem os perigos que alguns comportamentos nas redes podem causar, além de impor limites e reforçar o cuidado com esses pequenos.
“Então é momento para os pais olharem para dentro de si, se organizarem emocionalmente, entenderem porque estão numa corrida desenfreada por trabalho, por estudo por telas também. Temos muitos adultos viciados na questão de telas e uso das redes sociais e se desconectar disso e se conectar com a sua criança. O trabalho ele é importante, ele é necessário, porém ele precisa andar junto com o momento da família, de educar os filhos, criá-los, de dar limites. A palavra imite sempre vai estar na minha fala, porque crianças sem limites, as emoções e as memorias delas justamente é do mesmo abandono daquela criança que é criada rígida demais ou excesso, ou liberto demais, gera malefícios profundos nas memórias dessas crianças. Porque se eu estou muito livre, é porque ninguém está cuidando de mim ou porque eu não sou tão importante”, finalizou.