No ano de 1971, um grupo de jovens negros se reuniu no centro de Porto Alegre com intuito de pesquisar a luta dos seus antepassados e questionar a legitimidade do 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, como referência de celebração do povo negro.
Entre os jovens estavam Antônio Carlos Côrtes, Oliveira Silveira, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes, Jorge Antônio dos Santos (Jorge Xangô) e Luiz Paulo Assis Santos. Juntos, eles formaram o Grupo Palmares, uma associação que realizava estudos sobre a história e a cultura negra.
Sem o apoio do Estado para inserir os ex-escravizados na sociedade e diante das mazelas que seguiram afligindo o povo negro, o Grupo Palmares decidiu dizer “não ao 13 de maio” e buscou por meio de estudos uma nova data que simbolizasse a luta negra. Foi assim que descobriu a data da morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), líder do Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas. O quilombo foi o maior reduto de resistência à escravidão do período colonial.
Partindo desse entendimento, passaram a sugerir o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, para destacar o protagonismo da luta dos ex-escravizados por liberdade e gerar reflexão para as questões raciais.
Mas o dia da Consciência Negra também vem nos trazer muitas indagações. Será que o objetivo foi alcançado? Há algo para se comemorar, de fato?
Vale ressaltar que ainda temos um longo caminho a ser trilhado, pois mesmo em tempos atuais é nítida a falta de oportunidades para a população negra, o racismo ainda é muito presente nos detalhes do cotidiano e além das inúmeras tentativas de extinguir a cultura africana.
Vejamos alguns indicativos que podem nos ajudar a entender o problema do racismo no Brasil:
- Em um levantamento realizado após as eleições de 2018, somente 4% dos políticos eleitos para o Legislativo autodeclaram-se negros. A pesquisa indicou que, entre deputados distritais, estaduais, federais e senadores, somente 65 dos 1626 eleitos declaravam-se negros.
- Dados apontam que cerca de 56% da população autodeclara-se negra (pretos ou pardos), mas, entre os mais ricos, os negros representam somente 17,8%. Em contrapartida, os negros representam 75% dos mais pobres, além de corresponderem à maioria dos presos no Brasil: 65%.
- Os negros são mais condenados que os brancos quando são processados por posse de drogas. No entanto, eles são apreendidos com doses menores de substâncias ilícitas em relação a condenados brancos. Não só a justiça demonstra ser mais rigorosa contra os negros, mas a polícia também, uma vez que 76% dos mortos pela polícia são negros.
- Também é válido mencionar que, no mercado de trabalho, os negros também sofrem com o preconceito, pois, recebem, em média, 1200 reais a menos em comparação com os trabalhadores brancos. Até no desemprego, os negros sofrem mais, uma vez que mais de 60% dos desempregados são negros.
- A cultura religiosa oriunda dos negros africanos também sofre bastante com o preconceito no Brasil. Na década de 1930, as chamadas religiões de matriz africana eram proibidas no Brasil. Atualmente, apesar de a Constituição prever a liberdade religiosa, o que se vê em nosso país é uma perseguição as religiões de matriz africana.
- O racismo foi tão impregnado na cultura do brasileiro que até no vocabulário ele se manifesta. Expressões como “da cor do pecado”, “denegrir”, “mulato”, “cabelo ruim” (para se referir ao cabelo crespo), entre outras tantas, denotam claramente o racismo e surgiram do legado dos mais de 300 anos de escravidão no Brasil.
Tamanha foi a ousadia daqueles jovens negros que se reuniram em Porto Alegre podemos afirmar que uma semente foi plantada ali e porque não dizer que foi um dos marcos da constituição dos movimentos negros.
Em 2003 o Senado aprovou o Dia da Consciência Negra, entrando também no calendário escolar a partir da sanção da Lei 10.639 do mesmo ano, que obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff oficializou a data como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. Mas o 20 de novembro só é feriado em locais com leis municipais ou estaduais específicas.
É importante olharmos com cuidado e atenção para a nossa história e para tudo aquilo que com tanto sangue e suor foi conquistado e nos foi legado. A celebração da Consciência Negra é a celebração de um povo que se forjou na luta, então celebremos em luta.
"Nossa pretensão é de uma sociedade não racial.
Não é uma questão de raça; é uma questão de ideias."
(Nelson Mandela)
Matéria: Davison Santos - On Jornal
Fontes:
https://www.brasildefato.com.br/