Fosfoetanolamina sai do patamar de ‘pílula do câncer’ para virar caso de polícia

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A fosfoetanolamina, a polêmica “pílula do câncer” voltou à tona neste início de janeiro de 2018, agora como um caso de polícia. Diante de vários pareceres contrários, médicos e legais, à sua utilização contra diversos tipos de câncer por falta de eficácia comprovada, a fosfoetanolamina passou a ser comercializada como suplemento alimentar – o que não é proibido pela legislação. Ocorre que avaliações realizadas no Instituto de Química (IQ) da Unicamp constataram que este produto não traz um traço sequer da substância. Laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP), solicitado pela Polícia Civil e recém-divulgado, também constatou a inexistência de fosfoetanolamina em cápsulas de suplemento da empresa Quality Medical Line.

O dito suplemento alimentar promete melhorar a qualidade de vida, o desempenho de células de defesa do organismo e o equilíbrio das funções metabólicas do corpo, embora implicitamente explore a esperança para a cura do câncer. “Agora, o consumidor pode estar sendo vítima de fraude a partir de um mesmo produto”, diz o professor Luiz Carlos Dias, coordenador do Laboratório de Química Orgânica Sintética do IQ. O docente foi responsável pelas análises de cápsulas do lote número 1701053, colocado à venda na internet por 99 dólares (mais de R$ 300) o frasco, adquirido e examinado a pedido do jornal Zero Hora e da RBSTV (Rede Brasil Sul), que em 3 de janeiro divulgaram reportagens que levaram a Polícia Civil a deflagrar a “Operação Placebo”.

Para confirmar a denúncia, o GDI solicitou as análises ao professor Luiz Carlos Dias devido à sua experiência anterior com a fosfoetanolamina. Os resultados, segundo o pesquisador da Unicamp, mostraram que as cápsulas do lote examinado não continham a substância: 96% do conteúdo era de excipientes usados para dar cor e consistência à mistura, comuns em medicamentos, mas desprovidos de quaisquer efeitos terapêuticos benéficos.

Os 4% restantes eram de fosfato de monoetanolamônio, derivado da reação química entre ácido fosfórico e monoetanolamina (matérias primas usadas na síntese da fosfoetanolamina) – tal substância já se revelara com efeito muito reduzido no combate ao câncer de pele, mas muito tóxica, pois ataca células sadias e doentes. “Para mim foi uma surpresa muito grande”, afirma o docente, que manifesta profunda indignação e revolta diante da comercialização de um produto comprovadamente inócuo, que não contém sequer o componente que leva as pessoas a comprá-lo.