Fiocruz inova no diagnóstico molecular de febre amarela

0
30

Em resposta ao crescimento de casos de febre amarela, o Ministério da Saúde distribuiu, desde 2017, mais de 68 milhões de doses da vacina aos estados brasileiros – são 52 milhões de doses a mais do que o total distribuído em 2016. Em março de 2018, o Ministério anunciou que todo o território nacional será área de recomendação para vacina até abril de 2019, com previsão de imunizar mais de 77 milhões de pessoas.

Medida central para prevenção e controle da doença, a vacina é considerada segura e apresenta eficácia de 95% a 99%. Entretanto, assim como qualquer vacina ou medicamento, pode causar eventos adversos. Nesses casos pouco frequentes, ocorrem sintomas idênticos aos da infecção natural pelo vírus. Para distinguir a origem do caso é necessário identificar, em laboratório, se o paciente apresenta o vírus selvagem – aquele em circulação num determinado local, transmitido pela picada de mosquitos – ou o vírus atenuado – que é utilizado na produção da vacina. Uma inovação em diagnóstico molecular idealizada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e desenvolvida em parceria com a Universidade de Bonn, da Alemanha, permite diferenciar com precisão e mais agilidade se a origem do caso foi uma transmissão comum ou um evento adverso após a vacinação.

A novidade foi desenvolvida pelo Laboratório de Flavivírus do IOC/Fiocruz, que atua como referência regional para febre amarela junto ao Ministério da Saúde. A virologista Ana Bispo idealizou o projeto a partir de uma demanda concreta. “Criamos uma solução que permite dar respostas mais rápidas em termos de diagnóstico. Diante de um surto de febre amarela, a confirmação laboratorial é uma ferramenta importante na definição das estratégias de vigilância da circulação do vírus e controle da doença”, destacou a chefe do Laboratório de Flavivírus. O método diferencial, que utiliza a técnica de RT-PCR em tempo real, supera em muito a velocidade da tradicional técnica de sequenciamento genético do vírus, atualmente disponível para a diferenciação entre vírus selvagem e vírus vacinal. Enquanto o sequenciamento pode variar de três a 15 dias, o novo protocolo de RT-PCR em tempo real leva de uma a duas horas. Além disso, pode ser conduzido por um profissional que domine as técnicas básicas de diagnóstico molecular, enquanto o método de sequenciamento viral exige profissionais com capacitação específica para análise dos resultados do sequenciamento do material genético do vírus. O desenvolvimento e a validação do protocolo estão descritos em um artigo publicado no periódico científico ‘Emerging Infectious Diseases’, publicado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC).

A metodologia de RT-PCR em tempo real é baseada na identificação do material genético do vírus em uma amostra. Para chegar a um teste preciso, os

pesquisadores buscaram regiões do genoma em que o vírus selvagem e a cepa vacinal são diferentes, o que permite a diferenciação entre ambos. Foram criados dois protocolos: o protocolo chamado de ‘alvo único’ (quando há necessidade da realização de duas reações separadas para detectar a presença do vírus selvagem e da cepa vacinal) e de ‘alvo duplo’ (quando a detecção é realizada em uma mesma reação).