Escritor amazonense Milton Hatoum lança livro para ajudar ONGs indígenas

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Inspirada por essa postura do escritor, ganhador de vários prêmios literários, a Páginas Editora, de Belo Horizonte, lançou “Sete Crônicas de Milton Hatoum”, uma seleção de textos publicados pela Companhia das Letras em 2013, no livro “Um solitário à espreita”.

Milton Hatoum é um dos escritores engajados, para quem a literatura é uma forma de militância. Democrático e solidário, ele demonstra preocupação com os povos indígenas da Amazônia.

Da renda das vendas do livro, 50% irão para organizações não governamentais que apoiam a causa indígena.  São elas o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi (@centrodemedicinaindigena), que assiste aos pajés, idosos, também à Amism Sateré Mawe (@amism_sateremawe), que reúne mulheres indígenas artesãs, também com atividades suspensas, e ao Parque das Tribos.

Nesta última, cerca de 700 famílias lutam para manter suas tradições e costumes. Junta-se a essas associações a Operação Amazônia Nativa, a mais antiga associação indianista do país. Além disso, a pedido do escritor, 50 exemplares seguiram para estudantes de escolas públicas de Manaus. O preço da obra é R$ 27,90.

Uma Live esta marcada para o dia 24 de agosto, às 20h, no Instagram @bienalmineiradolivro.

Em entrevista, o autor do livro revela o que o leitor pode esperar da coletânea de obras.

Você acha que a literatura deve ter uma função política e social no Brasil, nos tempos atuais? Por quê?

 A literatura, principalmente a ficção, sempre tem uma abordagem social, política, simbólica e histórica. Isso pode ser mais ou menos ostensivo. Depende de cada obra e de como ela é lida. Às vezes, premidos pela ameaça de um governo obscurantista, escritores e artistas expressam sua indignação de um modo mais direto. Isso ocorreu durante a ascensão do fascismo na Europa, nas ditaduras na América do Sul, nos regimes opressores de países da África e do Oriente Médio. 

Se o índice de leitura no país é baixo e as livrarias estão fechando, que futuro esperar do universo leitor?

O presente e o futuro do público leitor dependem de sua formação educacional. Como as crianças e os jovens leem ou são orientados nas escolas públicas? Perdemos um ano e meio de política educacional eficaz com um ministro absurdamente incompetente, vulgar, possuído por uma ideologia extremista. Essa política econômica e educacional desastrosa e irresponsável atinge toda a cadeia de produção e consumo em torno do livro. Mas acredito que uma mudança significativa na política poderá reverter essa situação dramática.

O que o leitor pode esperar desta seleção de crônicas publicada pela Páginas?

Não sei. O leitor é tão misterioso quanto o ato da escrita. São crônicas de assuntos variados. Alguns textos podem ser lidos como contos ou recortes da memória.

Este projeto de publicação destina recursos para ONGs que dão assistência a indígenas na Amazônia. Fale um pouco de como percebe a situação atual desses povos, das terras que vêm perdendo e do tratamento que recebem das autoridades.

A política socioambiental deste governo é criminosa. “É hora de passar a boiada”, como disse, sem constrangimento, o ministro do Meio Ambiente. Nenhum governo anterior refletiu sobre a complexidade da Amazônia e de seus povos. A usina hidrelétrica de Belo Monte é apenas um exemplo dessa incompreensão e descaso. Mas nenhum governo foi tão cúmplice de grileiros e desmatadores a serviço de mineradoras e grandes fazendeiros. O que se vê é uma política de extermínio das populações indígenas. É possível que haja uma restrição ou mesmo um boicote da União Europeia a produtos brasileiros. Nossa contribuição às ONGs indígenas é muito modesta, mas se milhares de pessoas fizerem isso, certamente terá algum efeito positivo. É preciso também protestar contra esse crime em curso. Esse ministro do Meio Ambiente, investigado por crimes que cometeu em São Paulo, deve ser demitido.