Entrevista com Sérgio Jamal Gotti, gerente-executivo de Educação do Sesi ‘Novo ensino médio exige forte mudança na mentalidade do brasileiro’

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O Serviço Social da Indústria (SESI) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) iniciaram, no dia 29 de janeiro, uma das experiências pedagógicas pioneiras no Brasil de implantação do novo ensino médio. Ao final de três anos, os alunos que participam do projeto, realizado em cinco estados, terão dois diplomas: de conclusão do ensino médio e de técnico em Eletrotécnica.
Nesta entrevista publicada originalmente pela Agência CNI de Notícias, o gerente-executivo de Educação do SESI, Sérgio Gotti, fala sobre os desafios de construção e implementação do novo modelo, especialmente de um currículo integrado por áreas de conhecimento e não mais por disciplinas.
Por que o SESI e o SENAI decidiram fazer essa experiência pedagógica, que é uma das pioneiras no Brasil?
Sérgio Gotti – O SESI e o SENAI já têm uma parceria de 18 anos nas escolas, executando a educação básica articulada com a educação profissional, que chamamos de Ebep. Em um período do dia, o aluno está na escola do SESI da educação básica e, no outro turno, faz o curso de educação profissional do SENAI. Essa é uma política já consolidada no Sistema Indústria e que existe em 23 estados.
Quando surgiu a nova lei do ensino médio, que tem o itinerário da formação técnica e profissional, o itinerário 5, percebemos que o SESI e o SENAI conseguiriam integrar o currículo com muita propriedade e agilidade. O Sistema Indústria, por estar em todo o Brasil e com a experiência do Ebep, talvez seja a rede com as melhores condições de implantar o novo ensino médio no país.
Qual é a diferença primordial da experiência pedagógica do novo ensino médio para o Ebep?
SG – O Ebep trabalha em uma visão articulada, uma visão concomitante, do currículo. O novo ensino médio prevê realmente uma integração. Então a matemática e a física, por exemplo, falam muito melhor com a educação profissional, evitando superposição ou repetição de habilidades. Além disso, estamos trabalhando por áreas de conhecimento e não mais por disciplinas, o que é um ganho enorme, porque é muito difícil na atualidade alguém pensar dentro de caixinhas. Ou seja, é uma mudança fortíssima de paradigma que obriga todos a terem um pensamento não mais compartimentado por caixa, de que cada um cuida apenas de seu espaço sem se importar com o que acontece com as demais áreas.
Além disso, ainda é muito difícil que o professor da educação básica e da educação profissional planejem juntos com uma visão total da educação. E é um desafio enorme para todos nós.
Como foi construída a experiência pedagógica do SESI e do SENAI?
SG – Inicialmente, é preciso deixar claro que o SESI e o SENAI não estão fazendo um projeto-piloto, que é restrito, tem início, meio e fim. Trata-se de uma experiência pedagógica, que tem um sentido de ampliação, pois está sujeita, a qualquer momento, a sair do universo de cinco estados que temos hoje e chegar a outros sistemas de ensino. Neste momento, a experiência pedagógica ocorre em cinco unidades da Federação que já trabalhavam com o Ebep: Bahia, Alagoas, Ceará, Espírito Santo e Goiás.
Estamos com cerca de 220 alunos nesses estados. O rico e o mais interessante dessa proposta é que a sua construção contou com a participação de grandes especialistas renomados da educação brasileira, como Cláudio Moura e Castro, Guiomar Namo de Mello, Genuíno Bordignon (da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), que estão conosco nessa interpretação teórica do projeto, e foi elaborada por especialistas e professores de ambas as redes, SESI e SENAI, sentando juntos para pensar no currículo integrado: quais são as verdadeiras necessidades para a educação profissional, mais especificamente, na área industrial de Energia e na habilitação técnica em Eletrotécnica.
É necessário, então, construir um currículo específico de ensino médio para cada formação técnica e profissional que for oferecida?
SG – Sim, é a realidade e é o rico desse novo ensino médio. Não é simples, é uma mudança de estrutura fortíssima. É uma mudança enorme na forma de concepção de projeto pedagógico.
A atual experiência pedagógica é na área de Energia e na habilitação técnica em Eletrotécnica, mas nós queremos ampliar nossa atuação para atender a pelo menos outras 9 áreas industriais, além dos itinerários formativos de Matemática e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias, que são fundamentais para o fortalecimento do trabalho em STEAM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologias, Engenharia, Arte e Matemática) realizado nas redes SESI e SENAI. Ou seja, serão, no mínimo, 11 currículos diferentes, então é um desafio enorme.
No 1º ano, os alunos terão orientação sobre carreiras e iniciação profissional. Como será esse módulo em sala de aula?
SG – No 1º ano, o currículo foi construído prevendo-se uma formação geral para que possa abranger os cinco itinerários previstos na Lei do Ensino Médio, com peso maior nas competências e habilidades de educação básica: são 800 horas destinadas a linguagens, ciências da natureza, matemática e ciências humanas. As demais 200 horas, de forma bem inovativa, foram concebidas com o intuito de preparar o aluno para as escolhas que vêm pela frente, no leque dos cinco itinerários formativos.
É uma construção de um projeto de vida e de carreira, com foco no mundo do trabalho na cidadania, no desenvolvimento humano, na introdução e aprofundamento de ações socioemocionais. Criamos uma série de protótipos que são projetos pré-determinados, que contêm uma série de competências e habilidades específicas a serem trabalhadas, como desenvolver o trabalho em equipe. Vamos levantar questões como: “O que você vai ser quando crescer?” para levar à etapa do autoconhecimento.
A segunda parte é conhecer o mundo do trabalho propriamente dito, o que está acontecendo no mundo, o que o mercado precisa como profissão, inclusive aquelas que ainda não existem, que serão necessárias para a Indústria 4.0. Queremos estimular também a inovação e empreendedorismo. O nosso aluno pode ir para indústria, mas também pode ser empreendedor. Outro tema é raciocínio lógico e lógica de programação. Não adianta você pensar que não gosta de cálculo, de números. A lógica, que vem inclusive da Filosofia, é o definidor de absolutamente tudo o que você faz hoje em dia profissionalmente.